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Fala Sério! • 18 de setembro de 2013 • 07h53

Releitura de vida

Por: A.J. Rettenmaier

Uma das poucas coisas que não fazemos normalmente. Quem sabe que por medo do que vamos encontrar nas entrelinhas. Até porque estamos sempre imbuídos da necessidade de nos prevenir e pré-julgar. E por causa destes dois fatores deixamos de fazer a releitura que fatalmente trará os motivos reais dos fatos. Digamos que fazendo a releitura de nossas vidas, talvez encontremos em nós mesmos os motivos para nossas decepções. Quem sabe não encontraríamos nas pequenas e contínuas frustrações que causamos, os ingredientes perfeitos  para o bolo da decepção. Nem sempre fazemos a leitura certa de nossas vidas, nossas relações e relacionamentos. A nós sempre parecerão perfeitas. Esquecemos na maioria das vezes que sempre esperamos dos outros um quilo de sal temperado quando não conseguimos dar sequer um grama do comum. Olhamos nossas dificuldades e vontades. Ao notarmos algo diferente nos outros, no máximo perguntamos se está acontecendo alguma coisa. Mas o que, também não nos interessa. Porque julgamos que nada tem a ver com nosso projeto de vida. Sempre buscamos apoio nos outros, mas hora de oferecer, temos no máximo uma bengala surrada e quebrada. Numa releitura de vida, imaginamos que nosso jeito de ser, fazer, dizer e viver está certo. Poderia até estar, não dependesse nossa vida e a de outro ou outros, da nossa. E a nossa da dele ou deles. Tudo porque com o tempo deixamos que o entrelaçamento nos pontos do crochê se afrouxe. E neste relaxamento, se escapam por entre nossos dedos. Ao nos tornarmos cada vez mais únicos e individualistas, nos esquecemos do todo de que são feitos nossos dias. E este todo fica a cada instante mais difuso, inseguro, volátil e fugidio. E então, de nada adianta perguntar se está acontecendo alguma coisa. Nem mesmo quando vemos ou ouvimos alguma coisa diferente, conseguimos a dimensão de que pode estar sendo para nós. E o que seria para nós uma surpresa preparada, nos vira uma decepção esfarrapada. Ora, se nós mesmos deixamos de fazer a releitura de nossas vidas, como queremos que os outros consigam ler? Mas como é difícil que tenhamos coragem de assumir que com uma dose diária de frustrações tenhamos provocado o que para nós será simplesmente, mais uma frustração.

Antonio Jorge Rettenmaier, escritor, cronista e palestrante. Esta coluna está em mais de 90 jornais impressos e eletrônicos do Brasil e Exterior.
 


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