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Artigos e Opinião • 15 de maio de 2018 • 08h04

Da esperança aos fantasmas de cada dia

O ser humano, via de regra, é influenciado por dois extremos: a esperança e os fantasmas. Ambos fazem de nossas mentes um jogo de tensões. Ora um vai a nocaute, ora é o outro. É uma luta diária. Ao acordar, consciente ou inconscientemente, temos a esperança de que o dia será bom e que terminaremos o mesmo e que, amanhã, será outro. Há três esperanças nessa afirmativa: o dia não será ruim, que não morreremos, pelo menos nesse dia, e que veremos e viveremos um outro. Assim seguimos. Tentando não dar ibope para os fantasmas e tentando dar mais espaço e robustez às nossas esperanças.

 

Entretanto, diante da aridez e da inexorabilidade da realidade, nossas esperanças perdem a força e desabam diante de nossos fantasmas. Como manter a esperança de vida frente à quantidade e diversidade de mortes no Rio de Janeiro? Como manter a esperança de uma sociedade mais justa, com toda corrupção que assola o Estado brasileiro? Como manter a esperança na construção de uma sociedade melhor, frente ao caos que está a educação no Brasil? Como manter a esperança numa conquista da seleção de futebol na próxima Copa do Mundo, se a seleção brasileira perdeu a última por nada menos do que 7 a 1 para a Alemanha? Como manter a esperança diante de tantos fatos que nos lançam no risco de uma eminente morte física, moral, social, esportiva...?

 

Certamente, nossa esperança não é como gato, que dizem ter sete vidas. Caso assim fosse, já teríamos enlouquecido. Nossa esperança tem centenas de vidas. Ressurge das cinzas. Talvez esse seja pontualmente o problema. Ter esperança é esperar, e quem espera não age. É exatamente nesse esperar que os fantasmas irrompem e crescem e, quanto mais eles crescem, mais nos atormentam, podendo até nos paralisar. Não devemos ter esperança, devemos agir.

 

Quanta coisa podemos mudar com nossas ações? Me apresso em responder: inúmeras. Por exemplo, podemos mudar esse estado de caos que está o Brasil em termos de educação, saúde, segurança e política. Para tanto, basta votarmos de forma consciente, não pensando em benefícios individuais e imediatistas, mas sim nos coletivos, e a médio ou longo prazo. Precisamos aprender a agir, quando a mudança da situação está ao nosso alcance e a apenas esperar, quando nada podemos fazer. Quanto mais agirmos em prol de uma causa, menos damos espaço ao fantasma. Onde há ação o imaginário se encolhe e os fantasmas empalidecem. Onde somos impotentes, ou seja, onde não podemos agir, tudo o que nos resta é esperar. E os fantasmas? Eles aparecem.

 

O que podemos fazer diante do desempenho da seleção brasileira? Nada além de esperar e torcer, apesar do robusto fantasma dos 7 a 1 para o time da Alemanha. Mas esse fantasma em nada muda nossa realidade, nosso cotidiano. Não nos adoece nem nos faz mais saudáveis; não nos deixa mais ricos ou mais pobres; não faz de nós pessoas mais morais ou imorais. Aliás, deveríamos nos perguntar por que o desempenho da seleção é tão importante para a sociedade brasileira, quando atravessamos tantas intempéries e incertezas. Não sei se o que me assombra é a sociedade ver como um grande fantasma os 7 a 1, refletindo a importância que o povo atribui a uma seleção de futebol, ou se é o fantasma de que a seleção de futebol masculina é a possibilidade de alegria e vitória do povo.

 

Enquanto estivermos no tatame de tudo aquilo que está sob a vontade e mãos alheias, daremos muito mais chances aos fantasmas. Que nossas chances de alegrias e vitórias estejam em nossas mãos, dependendo apenas de nossas ações. Definitivamente, o sucesso ou fracasso da seleção brasileira de futebol não está dentro de nosso alcance. Está sim dentro da vontade e do alcance dos jogadores. Eu me pergunto: o que será que eles querem? Eles eu não sei, mas sei o que devo querer, que é tudo aquilo que está dentro de minhas possibilidades. Vivendo desta forma, nossa mente não será um ringue de batalhas entre a esperança e o fantasma.

 

Afinal, nossa mente merece lutas mais justas e com maiores chances de que a vitória seja a vicissitude. Conhece-se um homem pelas escolhas que ele faz. Escolher confiar vitórias e alegrias em mãos alheias é confiar nos galhos que pousamos. Escolher situações em que a vitória e a alegria dependem de nós é confiar na força de nossas asas. Você confia no galho ou na força de suas asas?

Virgínia Ferreira  - Psicanalista e professora da Faculdade de Medicina de Petrópolis (FMP/Fase) - divulgacultura@gmail.com



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