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Durante o Janeiro branco, dedicado ao debate sobre a saúde mental, é importante falar sobre o estresse que ronda médicos e enfermeiros que estão na luta diária contra a Covid-19

Por sentirem a vida escapar por suas mãos na sua rotina diária, muitos médicos sofrem com a depressão. Nem todos lidam bem quando perdem a partida para a morte e o sentimento de impotência pode desencadear a tristeza e o desânimo profundo em relação à profissão. E a convivência com o medo e pânico por conta do Coronavírus, apenas acirrou os ânimos de quem trabalha no front de batalha nos hospitais mundo afora. E o pior: não há uma previsão concreta de quando a guerra contra esse inimigo invisível vai ter fim. Todo esse cenário está levando médicos e enfermeiros à exaustão física e mental.

O emergencista e intensivista Vinicius Junior de Araujo Vicente, que atua como enfermeiro sênior no CTI do Hospital Bom Samaritano em Maringá, é testemunha de que a saúde dos profissionais da saúde não vai bem: afinal, quem consegue manter a sanidade diante de um cenário de horror, de guerra, no próprio ambiente de trabalho? O medo está em todos os lados: há temor em se auto contaminar; pavor em levar a doença para dentro de casa; em enxergar o receio nos olhos dos pacientes, há fraqueza em comunicar para a família que a vida de um paciente está por um fio ou que foi perdida.

 “Como líder da equipe, tento amenizar o estresse dos colegas de trabalho, revezando a equipe entre as UTI’s exclusivas para pacientes com Coronavírus ou mistas. Além do medo, médicos e enfermeiros estão esgotados, fisicamente e mentalmente, porque o próprio diagnóstico do Coronavírus é impreciso. Há mudanças de protocolos e de prescrição de medicamentos constantemente. A insegurança passou a fazer parte do nosso cotidiano. Qualquer alteração no organismo, uma mancha no corpo, um resfriado, já traz a suspeita da contaminação e o medo da letalidade da Covid-19, de espalhar o vírus para os colegas e pacientes. E, nessa semana, estamos sofrendo por antecipação de ansiedade, com medo do colapso no sistema por conta das aglomerações nos feriados. O resultado do comportamento das pessoas chega 15 dias depois. Não teremos braços e nem pernas para atender todos os pacientes. Tudo isso traz angústia. Estamos exaustos, física e mentalmente”, afirma Vinicius Vicente.

No limite, Aline Francieli Camilo Yano, enfermeira do Hospital Vida, em Londrina, está de férias. Para ela, o cansaço mental é consequência da preocupação, que se tornou constante com a chegada do Coronavírus. “É tudo muito novo e aprendemos sobre a doença a cada dia. Além dos sintomas, que variam muito, podemos ser assintomáticos. Então, estamos sempre apreensivos. Meu irmão já testou positivo para a Covid-19 duas vezes. Tenho medo de contrair a doença e levar para o hospital e vice-versa. Por mais que os protocolos de segurança sejam rígidos e da adoção do distanciamento social, sair para fazer as coisas básicas é inevitável. Então, estamos correndo risco. Me sinto exausta e precisava desse tempo em casa, principalmente nesse momento em que os números de contaminados estão aumentando pós-feriado. Estou aliviada por não estar trabalhando. Me sinto mais segura por não estar na linha de frente nesses dias”, conta Aline.

Ela e Vinicius não são exceção e fazem parte de outra estatística alarmante em tempos de pandemia: uma pesquisa da Associação Paulista de Medicina (APM) mostra que praticamente oito em cada dez médicos e enfermeiros (79,3%) estão mais apreensivos, pessimistas, deprimidos, insatisfeitos ou revoltados com o atual momento – somente 20,7% dos entrevistados se mostraram otimistas. Um dos principais problemas é a situação de impotência: apenas 22,3% se consideram plenamente aptos para atender seus pacientes em qualquer estágio da doença.

Por isso, o Janeiro Branco, que chama a atenção da sociedade sobre a importância da saúde mental, é uma boa oportunidade para refletir sobre a pressão que assola médicos e enfermeiros nesse momento triste da nossa história. “Os profissionais da saúde fazem parte do grupo de risco de desenvolver transtornos mentais. Muitos sentem sintomas de depressão, insônia e ansiedade grave, por conta da Covid”, destaca a psiquiatra Alessandra Diehl.

Além do medo de se contaminar, a falta de recursos do sistema de saúde é outro fator que interfere na saúde mental de médicos e enfermeiros. Outro ponto, segundo a psiquiatra, é a quantidade de horas semanais dedicadas ao trabalho, já que faltam intensivistas para dar conta de tantos leitos de UTI ocupados. Estão todos trabalhando no limite de exaustão, físico e mental. A maioria nunca se deparou com uma quantidade de pacientes tão grande nos plantões. “Se para os médicos de longa data já foi difícil, imagina o que está sendo para um jovem médico?”, questiona Alessandra.

Ela alerta que esse cenário desolador pode provocar quadros de burnout (estresse relacionado ao trabalho), depressão, ansiedade, entre outros transtornos nos profissionais que estão na linha de frente. “Tudo isso pode prejudicar ainda mais o tratamento da doença no país. A prevenção passa pelo apoio de psicólogos, psicoterapeutas e psiquiatras nos centros hospitalares para prestarem atendimento exclusivo para esses profissionais. O autoconhecimento conta muito nessas horas: quando o profissional sentir que a ansiedade for patológica ou estiver em depressão, é necessário buscar ajuda psiquiátrica. Outra orientação para esse público é buscar atividades prazerosas no tempo livre:  ver filmes, séries, recorrer à jardinagem e estar com seus pets, por exemplo. Tirar o problema do foco e se dedicar ao lazer faz muito bem à saúde mental”, enfatiza Alessandra.

Ela conclui lembrando aos profissionais da saúde que utilizar álcool, tabaco e outras drogas não é uma alternativa viável para lidar com o estresse. “Passado o relaxamento inicial, as substâncias contribuem para o agravamento dos quadros depressivos”, finaliza a psiquiatra.

Giovana Chiquim/Asimp

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