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O estômago continua queimando. Acho que exagerei nos pedaços de bolo que minha mãe fez especialmente para mim. O pior não é ficar com vontade de comer bolo e não ter alguém para fazê-lo, o pior é ter alguém para fazê-lo e você sofrer de gastrite e passar mal após o primeiro pedacinho.

A gastrite começa bem no fundo, nas entranhas do estômago, é uma queimação pequena que aos poucos parece incendiar todo o corpo, deixando com vontade de ficar deitado e sem fazer nada.

A boca fica amarga e de vez em quando solto um arroto fino, quase imperceptível, para os outros, mas esse arroto sai da garganta totalmente quente e traz lembranças do bolo que acabei de comer.

Se eu não me engano foi minha vizinha quem disse: “suco de couve é bom para a gastrite! ”

Arrotei couve por uma semana e minha gastrite não melhorou.

Estou sofrendo! Estou sofrendo!

Não porque minha gastrite está pior, é porque minha mãe fez bolo de maçã com cobertura de brigadeiro e recheio de pêssego. E eu continuo com minha gastrite atacada!

As maçãs colhidas pelos argentinos foram enroladas em papel manteiga roxa e colocadas meticulosamente em caixotes de madeira, atravessando a fronteira chegaram em alguma empresa fabricante de massa de bolo semipronta e de alguma forma foram adicionadas.... Ou quem sabe, só o aroma do bolo é de maçã e não tem nada a ver com Argentina e muito menos com papel de manteiga roxa.

Estou delirando! Meus braços envolvem minha barriga, estou arrotando maçã argentina!

A única esperança é o bem-aventurado sal de frutas, a maior invenção da medicina para quem sofre de gastrite ocasionada por pedaços de bolo.

Há quem diga que o sal de frutas só piora a gastrite, francamente não sei dessas coisas. Só gosto de ver a água límpida dentro de um copo límpido e o sal de frutas despejado sobre a água formando uma espuma branca na superfície que aos poucos faz o líquido borbulhar fazendo aquele barulhinho característico... eu tomo o sal de frutas ainda em processo de borbulhamento, dessa forma o líquido continuará borbulhando dentro de meu estômago.

O sal de frutas é uma panaceia!

Ave! O sal de frutas!

Apenas não sei se o sal de frutas é realmente feito com sal de alguma fruta.

Agora vou comer mais bolo de maçã com cobertura de brigadeiro e recheio de pêssego.

Ai! Minha gastrite!

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores.

Colabora com crônicas para jornais de Jacutinga, Mogi Guaçu - SP e Londrina - PR. Também já escreveu para jornais e Blogs Literários de diversas cidades do Brasil.

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