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Há pouco mais de 30 anos, em 1988, quando a Constituição Federal foi promulgada, o Brasil obteve importante avanço em questões relacionadas à proteção da natureza, um assunto até então restrito aos mais familiarizados com o movimento ecológico e ainda distante da consciência popular. O artigo 225 colocou o meio ambiente ecologicamente equilibrado como um bem essencial à qualidade de vida e, acima de tudo, impôs ao poder público e à coletividade a obrigação de defendê-lo.

Alguns anos depois, essa compreensão seria propagada no país de maneira mais enfática com a organização da Eco-92. Representantes de 172 nações se reuniram no Rio de Janeiro para determinar o futuro sustentável do planeta. O evento foi determinante para catapultar o Brasil como uma nação de destaque dentro do processo decisório de construção de mecanismos globais de proteção da natureza.

Ao longo de três décadas, movimentos significativos puderam ser observados no fortalecimento de uma cultura ambiental no país. Desde o surgimento de importantes organizações da sociedade civil até a consolidação de órgãos e políticas públicas, passando por avanços científicos, tecnológicos e de conhecimento.

Soma-se a isso a generosidade geográfica conferida ao Brasil – o país com a mais rica biodiversidade do planeta – e estão dadas as bases de uma nação que se tornou voz importante e ativa no cenário internacional em temáticas relacionadas à sustentabilidade, à conservação de áreas naturais, à proteção da diversidade biológica, ao desenvolvimento de tecnologias verdes. Uma nação com um dos mais importantes e vitais patrimônios naturais do planeta, atraindo os olhares, o interesse, o cuidado e o alerta da comunidade global.

Esse contexto é resultado de um esforço conjunto e de um processo coconstruído por atores diversos, que já na década de 1990 indicava a necessidade de engajamento das organizações empresariais e do investimento social privado em uma causa relevante a toda sociedade brasileira.

No âmbito internacional, a cultura verde do Brasil foi abastecida por iniciativas que ajudaram a despertar a consciência popular em torno das questões ecológicas, como a Convenção sobre Diversidade Biológica (concebida na Eco-92), o Protocolo de Kyoto, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e, mais recentemente, o Acordo de Paris, que busca limitar o aquecimento global.

Todavia, considerando aonde já chegamos, os retrocessos ambientais que ainda temos e as necessidades presentes no país e no mundo, é preciso pensar onde queremos estar ao final das próximas três décadas. Temos diante de nós uma conjuntura global que começa a valorizar e priorizar o uso de conhecimentos e práticas ambientais para finalmente transpor barreiras político-econômicas.

Nunca empresas e agentes financeiros estiveram tão interessados na construção de um planeta mais verde, se rendendo às evidências de que a natureza bem conservada pode, sim, ser força geradora de desenvolvimento socioeconômico. Com a ajuda desses atores, somados à ciência, à sociedade civil e ao poder público, é possível construirmos, de maneira inequívoca, um meio ambiente ecologicamente equilibrado para uso comum do povo e essencial à qualidade de vida. É preciso, contudo, separarmos a proposta do propósito.

Atualmente, estão sendo debatidas no mundo, em inúmeras frentes, propostas de como podemos atingir os objetivos para um desenvolvimento sustentável. É cada vez mais evidente que precisamos de propostas inovadoras e que tragam soluções para problemas do cotidiano. Mudanças na matriz energética global e nos meios de transporte lideram as ações dos governos. A produção de alimento e o uso responsável da terra estão na lista das grandes preocupações.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que a população do planeta chegue a 8,5 bilhões de pessoas em 2050 e a 9,7 bilhões em 2100. O avanço populacional nas grandes metrópoles, se não controlado, causará forte pressão sobre os ecossistemas marinhos e terrestres, colocando em risco os bens mais preciosos para a vida na Terra: o oceano, a água, as áreas de vegetação nativa e a biodiversidade.

Aplicar soluções baseadas na natureza, mudar hábitos de consumo, expandir a educação ambiental, aumentar a infraestrutura natural das cidades, criar novas áreas protegidas, desenvolver tecnologias não poluentes, investir em estruturas logísticas de reciclagem e descarte de materiais e ampliar redes de coleta e tratamento de esgoto são alguns dos fatores que devem ser levados em conta na formulação de propostas – que, como tem sido historicamente, são moldadas por interesses políticos, econômicos e sociais.

No entanto, o que não se pode mudar é o propósito. A visão de um mundo mais sustentável tem de ser parte integrante da nossa construção coletiva, de maneira a posicionarmos o Brasil, mais uma vez, na vanguarda da defesa ambiental, criando aqui uma cultura vulcânica de apreço aos nossos ambientes naturais e à nossa diversidade biológica. Esse é o propósito que lutamos para que todos abracem.

Malu Nunes é diretora executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN).

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