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Para responder essa pergunta sobre pessimismo hereditário, eu fui atrás de uma pesquisa oposta: “Felicidade é hereditária?”.

Trata-se de uma pesquisa que envolveu 181 pesquisadores de 145 diferentes institutos científicos na Holanda, com uma mostra de 298 mil pessoas participantes. Os pesquisadores encontraram diferenças entre as pessoas felizes e as demais, mapeando as informações genéticas. Portanto, pessoas felizes possuem diferenças geneticamente constatadas, fazendo com que alguns povos sejam mais felizes que outros. Nesses povos, há a prevalência de uma variante particular do gene amido hidrolase de ácidos graxos.

Ora, se a felicidade está ligada à genética, podemos deduzir que o pessimismo também está. “Ó vida, ó azar!” – nós poderíamos ter herdado outras coisas dos nossos antepassados, não é? Mas pessimismo?! Se você é filho de um pessimista, significa que você será pessimista? Depende… Vamos nos aprofundar no assunto.

Pessimismo e condicionamento

Além das questões genéticas, é preciso considerar também os condicionamentos, ou seja, se convivemos com alguém pessimista, tal comportamento pode ser tão repetitivo que acabamos nos tornando pessimistas. Muitos estudos sobre condicionamento se deram com ratos nas chamadas Caixas de Skinner. Essas caixas são como gaiolas que possuem dispositivos que, ao serem acionados, liberam comida e água aos ratos, após cumprirem um comportamento esperado. A base da caixa é uma grade eletrificada que é acionada pelo pesquisador caso o ratinho não cumpra o esperado.

Fiquei impressionada com uma pesquisa recente realizada com ratos, em que eles foram condicionados a ter medo de flor de cerejeira. Ao se aproximarem da flor, o botão da grade elétrica era acionado. Conclusão: com o passar dos dias, eles não podiam nem sentir o cheiro de flor de cerejeira que já saiam correndo, pois o cérebro do rato entendeu que aquilo era uma coisa ruim. O mais surpreendente dessa pesquisa é que os filhotes desses ratos nasceram com medo de flor de cerejeira. Foram observadas, nesses filhotes, alterações em enzimas do seu mapa genético. Ou seja, o condicionamento não deixa marcas apenas no comportamento, mas também no corpo. E essa marca será herdada depois pelos filhos.

“Ó vida, ó azar…” Então, se sou condicionado a ser pessimista, ou se venho de uma família pessimista, estou fadado a ser pessimista para o resto da vida? A resposta é não. Seguindo o exemplo da flor de cerejeira, podemos treinar o ratinho a gostar da flor novamente. Como? Em vez de choques, podemos

dar água e alimento junto com a flor até que ele entenda que aquilo é bom. É treinar o cérebro a fazer diferente. Nossos comportamentos podem ser condicionados, mas nosso ser não é condicionado. Nosso ser mais profundo é livre; dessa forma, pode decidir fazer algo diferente a qualquer momento.

Como mudar?

É possível mudar a forma de pensar e, portanto, deixar de ser pessimista. Pesquisas mostram que o cérebro, como uma forma de economizar “energia”, cria “atalhos” que acabam por gerar comportamentos automáticos. Por exemplo, quando saímos do trabalho, não precisamos pensar em como chegar em casa. Tanto é que, quando eu era recém-casada, algumas vezes, sem perceber, cheguei na casa de minha mãe ao invés de chegar na minha, principalmente nos dias em que estava muito cansada.

O pessimismo é um atalho criado. Por exemplo: o pessimista abre a cortina pela manhã, depara-se com um dia lindo e ensolarado. Há um brilho especial que toca o orvalho das plantas, os pássaros passam pela janela cantando, há um  frescor de vida. Nessa situação, o que o pessimista enxerga? Uma nuvem lá no horizonte, que vem acompanhada de um pensamento: “Pronto! Vai chover hoje!”. Que pena, não é mesmo? Não digo isso por causa da chuva, mas pela visão do pessimista. Talvez chova à tarde – aliás, em Curitiba, onde moro, se há nuvens provavelmente isso irá acontecer. Porém, o pessimista nem viu o sol, e provavelmente não conseguirá ver a beleza da chuva. A mesma coisa acontece na cerimônia de casamento de um parente, que foi perfeita aos olhos de todos. Para o pessimista, o bolo poderia ser mais doce, as flores poderiam ser coloridas em vez de brancas, o vestido da noiva estava exagerado demais… Enfim, é muito difícil viver ao lado de alguém assim.

O pessimista é incapaz de ver o todo, pois treinou seu cérebro para ver só o detalhe negativo da situação – eis o atalho. E é com esses olhos que ela enxerga as pessoas com quem convive. Não consegue ver a riqueza que cada ser humano possui. Vê apenas o defeito ou o que falta. Porém, caso o pessimista queira mudar, ele conseguirá. Será necessário treinar o cérebro para que seja criado outro atalho, mas agora, o atalho que o levará a enxergar o positivo.

Criando novos atalhos na mente

Certa vez, um estudioso, que estava justamente treinando o cérebro para enxergar o positivo, citou um fato particular. Ele acordou numa dada manhã, depois de ter feito amor com sua esposa, a quem ele tanto amava. A esposa, toda carinhosa, levantou-se e disse: “Eu vou preparar um café da manhã especial”. Ele então se levantou e foi para o banho imaginando a omelete, o bacon, enfim, tudo que costumava idealizar como uma boa mesa de café da manhã.

Quando ele chegou à cozinha, no entanto, não encontrou nada daquilo que ele havia pensado; pelo contrário, tinha algo muito estranho, quinoa – um prato de que ele não gostava. Como ele estava tentando treinar o cérebro para ver o positivo, em vez de esbravejar e reclamar, buscou outra resposta: “Ah, faz tanto tempo que a gente não come quinoa, não é mesmo?”. Assim, ele estava criando um outro atalho.

Ao agir dessa maneira, esse estudioso estava mentindo? Ele disse para a esposa que adorava quinoa? Não. Aliás, o cérebro não acredita em mentiras, muito menos as esposas. De fato, havia muito tempo que eles não comiam aquilo. O que ele recebeu com isso? Ele recebeu um sorriso tão gostoso de sua esposa, que valeu a pena ter comido quinoa naquele café da manhã.

Enfim, que tal criar atalhos dentro de você para o positivo da vida? Lembra-se do ratinho que já nascia com medo de flor de cerejeira porque herdou a herança genética desse medo? Ele pode mudar sua história e gostar de flor de cerejeira. No caso de um ratinho, ele precisará ser estimulado para que

o cérebro entenda que o bom é bom, isto é, que cerejeira é algo bom. Se você é um pessimista, já deve ter entendido que o pessimismo é ruim, pois além de prejudicar a sua vida, pode machucar as pessoas com quem você convive e ainda  deixar marcas para futuras gerações. Qual a herança que você quer deixar?

Trecho extraído do livro Vencendo os traumas que nos prendem”, de  Adriana Potexki.

Adriana Potexki é escritora e autora dos livros ‘A cura dos sentimentos em mim e no mundo’ e ‘A cura dos sentimentos nos pequeninos’. Com formação em Psicologia, ela é terapeuta certificada pelo EMDR Institute, palestrante internacional e blogueira do site ‘Sempre Família’, do Grupo GRPCom. Autora do livro “Vencendo os traumas que nos prendem” , pela Editora Canção Nova.

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