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“Havendo despressurização...”, anuncia a comissária, em tom calmo, aos ouvidos dos senhores passageiros daquele voo atrasado, sob a umidade e a monocromia do céu de quase inverno. Enquanto alguns estavam com as mãos suadas de ansiedade, outros ignoravam a instrução gentil, porém necessária – viajantes distraídos com o pensamento voltado para reuniões de negócios ou embalados na saudade de casa –, simplesmente negando a preocupação com qualquer infortúnio no ar. Alheia às reações, a voz continua: “... máscaras cairão automaticamente à sua frente. Puxe uma das máscaras...”

Ainda há três horas pela frente e já procuro desenhos nas nuvens. Veio-me à mente parte daquela mensagem que passaria mais uma vez despercebida na rotina, se não fosse a curiosa frase, quase despretensiosa: “... caso haja uma criança ao seu lado, coloque a máscara primeiro em si, depois na criança”... Alto lá! O que nos ensinaram sobre emergências? Por ímpeto ou por instinto, “mulheres e crianças primeiro”, mas a moça de sorriso e franja impecáveis orientava o contrário: “primeiro em si”... Já adulta, pus-me a pensar sobre as inúmeras situações com relação aos relacionamentos familiares ou profissionais. Na intenção de cuidar, orientar, adiantar e prevenir, acabei julgando, precipitando, punindo, matando a descoberta! Maldita contradição!

Professores e pais – orientadores em geral – deveriam pensar mais na função do pronome reflexivo “se” antes de exercer seu pretenso poder de sair consertando o mundo. Olhar-se com atenção e analisar as próprias intenções, pensamentos e atitudes é um exercício saudável, que, se praticado com empenho e disciplina, desenvolve os músculos da coerência e aumenta o tônus do discurso. Isso se traduz, na prática, em um exemplo para o educando. Se assim agissem com frequência, aqueles sujeitos – reflexivos, resilientes e flexíveis – constituiriam ambientes organizados em pressupostos de democracia, abertura, consciência, sentimento de si, responsabilidade, autonomia e capacidade de partilha: o ideal inteligente e democrático de todos os que trabalham com educação. Nesse caso, como afirma Isabel Alarcão, não só a escola, mas também outras instituições seriam reflexivas, inteligentes, flexíveis e resilientes em sua essência. Na mesma medida seriam extensões das pessoas e se apresentariam como o oposto das organizações burocráticas nas quais predominam a rigidez, a lentidão nas respostas e a falta de abertura, de confiança e de partilha nos processos e estratégias de decisão, bem como nos resultados, sejam eles favoráveis ou desfavoráveis.

A voz soou de novo, desta vez para anunciar uma mensagem mais reconfortante: em breve, estaríamos em solo. A monotonia daquele voo, como tantos acontecimentos na vida, inesperadamente traduziu-se numa oportunidade grandiosa de aprender. Aquela frase tão simples, mas intrigante – “primeiro em si” – terá ênfase especial e trará constantemente à lembrança o exercício de uma postura reflexiva, de uma atuação resiliente como força que nos conduz ao equilíbrio, do olhar para dentro para sondar o próprio coração – procedimentos bem seguros para quem embarca num voo lotado e turbulento, na intenção de educar-se para educar.

Cleia Farinhas é gerente pedagógica do Sistema Positivo de Ensino.

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