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Em abril, eu já afirmava que fechar os prédios escolares seria a parte mais fácil do caminho entre o início do enfrentamento da crise causada pela Covid-19 e o retorno das aulas presenciais. Se a fase de implementação não planejada e emergencial do ensino remoto já tem sido difícil e complexa, muito mais difícil será o retorno das aulas presenciais para gestores escolares, professores e alunos, um contingente de cerca de 65 milhões de pessoas ou 30% da população brasileira.

O retorno após dois meses de férias de verão tradicionalmente sempre foi um momento de alegria, abraços efusivos e a costumeira algaravia de uma escola festiva. Todavia, após esse período excepcional de 5 ou 6 meses, encontraremos estudantes, professores e funcionários que passaram ou ainda estarão passando por experiências negativas ou até traumáticas, como problemas psicológicos, perda de renda, falta de apoio domiciliar ou óbitos de familiares e conhecidos. Destarte, a essência da primeira e segunda semana possivelmente esteja no acolhimento, na ênfase ao vínculo afetivo, no olhar compassivo e na "escutatória" aguçada. Se esses aspectos já não fossem um suficiente desafio, ainda existirá o fato de que uma nova dinâmica se exigirá, pois o mais provável é que o retorno seja gradual com alternância de dias e séries/anos.

Assim, na Educação Básica brasileira – como em todo o mundo – a tendência será de uma educação híbrida (ou blended ou semipresencial), modalidade que combina tanto o professor em sala de aula orientando e expondo conteúdos quanto o discente estudando remotamente em plataformas digitais, ou outras formas de ensino não presencial. Um primeiro avanço nessa direção já havia sido dado nas diretrizes para o novo Ensino Médio, tendo o CNE permitido neste ciclo uma carga horária de até 20% à distância, podendo ir até 30% aos estudantes do noturno e até 80% aos da EJA. A modalidade é positiva, pois desenvolve características muito valorizadas no mercado de trabalho: disciplina pessoal, gestão do tempo, autonomia, fluência digital, foco. Porém, é necessária a maturidade para não embicar para o sedutor mundo digital das redes sociais e outras distrações. Certamente, em poucos anos deixará de existir a dicotomia ensino presencial e ensino a distância, será ensino... e ponto.

Todavia, isto posto, elevada é a necessidade de capacitação de nossos docentes, como se depreende de uma pesquisa do Instituto Península, na qual 83% dos docentes se sentem despreparados para o uso de novas tecnologias educacionais e muito apreciariam receber treinamentos na escola. É recomendável que a instituição de ensino se concentre inicialmente em ferramentas online de menor complexidade, pois facilita a prática e a troca de experiências para aqueles que se consideram dinossauros digitais.

Nesse sentido, a Covid-19 veio incluir novos parâmetros para avaliação do docente. Há aqueles que se agigantaram com a adoção das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) e até montaram em casa um miniestúdio para as aulas remotas. Outros, tidos como ótimos didatas no presencial, não possuíam fluência digital, tampouco desenvoltura e espontaneidade diante de uma tela para bem se comunicar com as famílias. Um diretor de escola deu o seu depoimento: "eu tive que contratar ajuda psicológica para 3 professoras, pois entraram em pânico quando viram na tela os seus alunos pequenos, e ao lado deles as mães."

Adicionalmente, o Parecer 11/20 do Conselho Nacional de Educação (CNE), de 7/7/20 – que tem o escopo de bem orientar o retorno às aulas presenciais –, recomenda o  zelo extremado em relação a três temas: 1) perdas de aprendizagem (estimadas entre 30% a 50%, com maior ênfase à Matemática); 2) reorganização do calendário escolar, inclusive com sugestão de um continuum curricular 2020-2021, ou seja, o ano letivo de 2020 não se encerra necessariamente em 31 de dezembro; 3) evasão e reprovação (especialmente no Ensino Médio, podendo chegar até 30%).

Este último tema bem reflete o drama que afeta especialmente as famílias de baixa renda, gerando mais desigualdade social: violência, drogas, gravidez precoce (cerca de 500 mil adolescentes de 11 a 19 anos se tornam mães por ano), bullying, necessidade de trabalhar ou a percepção de que “a escola é chata” por oferecer um currículo exagerado de 13 componentes curriculares obrigatórios, a maioria desconectada do cotidiano do aluno.

Concernente à aprendizagem, maior deverá ser a heterogeneidade entre os alunos, que se dividirão em três subgrupos: 1) os aplicados, autossuficientes, com boa estrutura tecnológica domiciliar; 2) os que apenas cumpriram o mínimo indispensável nos estudos e que em parte receberam ajuda de familiares nas avaliações e tarefas online; 3) os negligentes, desmotivados, muitos deles com problemas reais ou fictícios na conectividade. Será imperativa uma avaliação diagnóstica das lacunas de aprendizagem, com o propósito de se equalizar tanto quanto possível o nível de cada turma. E, na sequência, a aplicação de revisões presenciais e/ou remotas com os estudantes mais defasados, com o devido apoio pedagógico e a adoção de estratégias de recuperação da aprendizagem.

Neste cenário, escola e famílias, em especial agora, deverão ser parceiras, pois é complexa e cara a implementação das normas sanitárias e de biossegurança, bem como a reconfiguração do espaço físico. Serão necessárias compreensão e colaboração de todos, pois a maioria das escolas privadas estará com os cofres combalidos conquanto as públicas precisarão enfrentar um custo adicional de 30 bilhões, segundo estimativa do Instituto Unibanco, num contexto em que o governo também está esquálido em suas finanças. Da direção escolar, mais do que nunca, uma boa comunicação e a transparência diante da comunidade escolar serão extraordinariamente relevantes, devendo estar presentes a assertividade e também uma boa gestão de pessoas, instituindo regras bem definidas, sobretudo as que envolvem protocolos de higiene e biossegurança na escola, tendo em vista que os pais compreensivelmente estarão muito inseguros em relação ao perigo de contágio de seus filhos.

Para finalizar, é a hora e a vez de parafrasear o refrão de um grande banco: "nós vamos acertar, vamos errar, mas de braços cruzados não vamos ficar". Penosa e repleta de incertezas está sendo esta travessia, como se estivéssemos navegando em noite escura, sem carta náutica. Numa live de que participei, o outro painelista comentara o quanto o coronavírus é um desconhecido, e eu repliquei em tom de blague: “esse vírus só pode ter sido criado por um matemático; só tem incógnitas”. Nesta travessia, enlevados de boa espiritualidade, sejamos flexíveis, resilientes e, sobretudo, solidários, sendo oportunas as palavras de Dalai Lama: "A ajuda aos semelhantes nos traz sorte, amigos e alegria; sem ajuda aos semelhantes, acabaremos imensamente solitários".

Jacir J. Venturi é membro do Conselho Estadual de Educação do Paraná, foi professor e diretor de escolas públicas e privadas, e das universidades UFPR, PUCPR e UP.

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