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Houve um tempo, há muito tempo, que brasileiros, no Rio de Janeiro, opuseram-se a uma campanha de vacinação obrigatória. Mas isso foi há muito tempo, quando mal tínhamos saído da escravidão, as mulheres não votavam e mais de 65% da população era analfabeta. Não havia televisão, nem mesmo rádio. Praticamente não havia escola e os conhecimentos sobre Ciência e suas pesquisas, experiências e resultados satisfatórios na proteção contra doenças epidêmicas era algo ainda muito longe do radar das pessoas comuns. Nesse mundo, quase selvagem, houve uma revolta contra uma campanha de vacinação obrigatória.

Era o governo de Rodrigues Alves e o Rio de Janeiro estava de pernas para o ar, em meio a uma reurbanização tão intensa quanto indiferente ao destino de milhares de negros e migrantes pobres que vinham sendo desalojados de seus cortiços e deixados sem eira nem beira, sem saída, exceto subir os morros e recomeçar, como o Sísifo da mitologia. O governo higienizava a cidade, tornando-a arejada, limpa, ampla, estruturada. Mas esse projeto nunca cogitou oferecer essas condições aos brasileiros em geral. O Brasil não é para qualquer um.

Junto com as obras de engenharia, Rodrigues Alves também contratou os serviços do médico sanitarista Oswaldo Cruz para dar um jeito nas epidemias que assolavam a capital e matavam as pessoas de bem, afastando os turistas e prejudicando os negócios. A ideia de saúde pública não tinha como fim garantir o bem estar de todos, mas afastar o risco de morte dos que eram considerados importantes. Algo parecido com o que vimos recentemente, no século XXI, com as carreatas de proprietários exigindo a volta dos trabalhadores ao serviço: os proprietários, seguros e confortáveis em seus automóveis com os vidros levantados e o ar-condicionado ligado; os pobres, espremidos nos ônibus lotados, metrôs abarrotados, sem segurança nenhuma para a saúde deles.

Mas esse nunca foi problema, como nunca foi problema, no início do século XX, a saúde da população, mas o perigo dela infectar as pessoas que importavam. O Brasil é um país para poucos. Daí a decisão de obrigar todo mundo a se vacinar e por isso a criação de batalhões de agentes da Saúde que saíram às ruas, atrás das pessoas. Tudo feito sem cuidado, sem informações, com truculência típica das forças do Estado na sua relação com o cidadão comum. O Brasil não é um país para fracos.

Havia outras razões para a revolta, mas todas associadas à falta de informação: a vacina podia deformar as pessoas, matar, e estava sendo imposta para resolver o problema dos pobres que agora se tornavam um entrave para o projeto da cidade maravilhosa; era uma vacina que ofendia os pudores porque era aplicada na coxa e ninguém confiava no cuidado e no recato dos agentes públicos. Era uma coisa que, no fundo, ninguém acreditava, porque esse negócio de colocar o próprio vírus no corpo não parecia muito seguro. E ainda: era uma ofensa a Deus, porque desafiava o destino que Ele traçava para as pessoas. Ou seja: ignorância, moralismo, superstição, são as pedras que entravam o progresso. Triste palavra, gravada em verde na bandeira, tão pequenina diante da sua companheira majestosa: a ordem. E a vacinação se deu, entre tumultos, quebra- quebra, prisões e morte. A ordem sorriu por último. A cidade estava salva e estava linda, desde que não se fixasse o olhar nos morros que a circundavam.

Hoje surgem vozes, mais uma vez, a desdenhar da vacina, a falar sobre liberdade e sobre direitos individuais inalienáveis. O que permite tamanho despautério? Ignorância, moralismo, superstição. Mesmo passado mais de um século, o índice de analfabetismo ter caído para menos de 10%, a escola pública atender quase a totalidade das crianças e jovens, e a Ciência ser algo ao alcance de qualquer celular, o caminho da ignorância desafia os mais realistas. O Brasil não é para quem tem estômago fraco.

E o progresso, esse coitadinho, filho único da razão iluminista, respira por aparelhos.

Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo.

danielmedeiros.articulista@gmail.com

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