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“Eu sou eu, e minhas circunstancias” (Ortega Y Gasset)

Ao final de mais uma aula de Sociologia, numa turma de primeiro período de economia, Jane, uma das alunas, pede para falar comigo. Um pouco abalada e com os olhos marejados, ela disse: “sua aula mexeu muito comigo”. Tentando disfarçar minha surpresa, perguntei, qual parte?  Quando você falou um pouco de sua formação e daquele caso de suicídio que você explicou. Parecei que estava falando de mim. Eu tenho esse problema de pânico. Acho que preciso de ajuda. Bem, podemos marcar uma conversa.

No dia seguinte recebi Jane em meu consultório. Depois de explicar como funcionava o tratamento da Filosofia Clínica, ela decidiu dar prosseguimento. Após quase seis meses, com uma sessão por semana, era chegado o momento de apresentar o resultado do trabalho, da escuta atenta de sua historicidade e das possíveis causas de seu problema com as crises de pânico e o pensamento suicida. A descrição que faço agora é um resumo dos encaminhamentos realizados em clínica. Jane, ainda menina ficou sem o pai. A mãe passou por grandes dificuldades para criar ela e sua irmã mais nova. Em face do sofrimento e dificuldades de sua família, com apenas 11 anos, Jane assumiu para si a função de líder e provedora da família. Com sua pequena e magra estatura, andava na vizinhança e nos bairros próximos juntando latinhas. Ao final do mês, com os trabalhos de costureira de sua mãe e o que conseguia ganhar com a venda das latinhas iam sobrevivendo.  Mesmo contrariada e temendo pela segurança da filha, sua mãe aceitava a ajuda. Com doze anos Jane, convenceu um senhor da feira do bairro a lhe empregar na barraca para vender salgadinhos. Aos 14 anos tornou-se vendedora numa loja de roupas. Aos 16, foi trabalhar numa empresa de venda de consórcios. Sua boa aparência e simpatia a fizeram a melhor vendedora por anos. Tudo que ganhava era para a família. Com seu apoio e ajuda, a mãe aumentou o atelier e a irmã estava fazendo cursinho para o vestibular. Durante vários anos Jane se sacrificou pela sua família. Seu ressentimento era não poder fazer mais. Quando Jane conheceu sua namorada, ela decidiu que ia recuperar o tempo perdido. Voltou a estudar, aceitou um novo emprego e sua carreira se mostrava promissora.

Tudo ia bem, até o fato de sua mãe não aceitar seu namoro e sua orientação homossexual era administrado com paciência. Ela não entendia o que estava acontecendo, o porquê das crises e daqueles pensamentos sombrios. Um fato chamou atenção no tratamento. A grande maioria de suas crises acontecia quando estava sozinha, durante o banho. Foi fincando claro que a trajetória de Jane contribui para seu problema. Jane se estruturou em torno do papel existencial de provedora, “eu me tornei o homem da família”, como ela mesmo disse algumas vezes. O sentido de sua vida havia (seu papel existencial) foi alicerçado nessa ideia, no projeto, que por tantos se empenhou. Agora que Jane, estava namorando, que sua mãe e irmã seguiam suas vidas, o papel existencial auto atribuído estava perdendo o sentido e o resultado da crise ficava cada vez mais claro. 

Nos momentos em que estava sozinha, introspectiva e melancólica, via seu mundo ruir. Pensar que não seria mais necessária como esteio da família, descobrir que sua mãe e irmã já não precisavam dela, poderia parecer, para quem olha de fora, um alívio, uma nova e positiva fase de vida, mas não no caso de Jane. Era nesse contexto, nessa nova realidade que seus pensamentos tornavam-se sombrios e o pânico se instalava. Muitas vezes o choro convulsivo a dominavam a ponto de cair e desmaiar. Em meios as crises e sofrimento, a ideia de suicídio parecia uma saída viável. Aos poucos Jane foi se dando conta de sua armadilha e aos poucos aprendeu a criar novos papeis existenciais, formular novos projetos. Tornou-se “saudavelmente egoísta” ou seja, depois de tantos anos, aprendeu a se colocar em primeiro lugar, o que no seu caso, fez todo sentido e teve uma profunda ação profilática.

Prof. Everson Araujo Nauroski é Filósofo Clínico, doutor em Sociologia e atua como palestrante e terapeuta. E-mail: eversonnauroski@gmai.com

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