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Os ornitólogos ficaram assustados. Depois de anos e anos de estudos para avaliar o comportamento dos cisnes, uma bomba caiu sobre a cabeça de todos. Ninguém questionava que todos os cisnes do planeta eram brancos. Até que foi visto na Austrália um cisne negro. Um imprevisto jamais imaginado pelos cientistas que estudavam o animal e tinham gasto milhões de folhas de papel, com ou sem desenhos, sobre o belo animal. A Lógica do Cisne Negro, é um belo livro do Nassim Taleb. Portanto as ciências podem ser reavaliadas, reescritas, reestudadas. Faz parte da pesquisa encontrar fatos e conceitos novos que destroem os antigos. São desruptivos, para usar uma linguagem da moda. Mas válidos. As ciências ditas exatas têm metodologia própria e as pesquisas não se esgotam nunca. Nenhuma porta pode estar fechada para um pesquisador que resolve ravaliar tudo aquilo que é considerado como verdade soberana até aquele momento. Uma das características das ciências físicas é que as experiências podem ser reproduzidas a exaustão em laboratórios dentro e fora da atmosfera da Terra. E a descoberta para de pé até que o resultado de uma nova verificação desmonte a anterior.

As ciências humanas também tem uma metodologia própria. Não se confunde com a das ciências exatas. Não é possível reproduzir em laboratórios fatos históricos, uma vez que  não cabem em tubos de ensaio, não podem ser vistos mesmo em microscópios eletrônicos ou submetidos a uma dessas máquinas de ultima geração capazes de ler a estrutura do DNA. Entre as ciências humanas estão a história, sociologia, antropologia, economia, etnografia, entre outras. A derrota de Napoleão Bonaparte em Waterloo, em 1815, já foi  analisada e recontada inúmeras vezes. Contudo, não é possível reproduzir em um  determinado ambiente o que de fato aconteceu. Primeiro por que os protagonistas já morreram, depois que sem eles sobram apenas as testemunhas, oculares ou não, da história, como dizia o Repórter Esso. Uma das mais impressionantes tentativas de remontar o passado é um filme russo, Guerra e Paz, com milhares de figurantes, cavalos, canhões, povos massacrados, marechais e generais dando ordens aos soldados. Mas é apenas uma teatralização que pode ter algum conteúdo histórico, mas não é a experiência científica repetida nas estepes russas.

 A história tem sido repetidamente recontada. Uma das razões é a proximidade dos historiadores dos acontecimentos e o seu envolvimento ideológico ou emocional com os fatos ocorridos. Conta-se que certa vez um repórter perguntou ao ditador Mao ze dong o que achava sobre a revolução francesa. Responde o Velho Timoneiro, nada uma vez que o fato ainda é muito recente. Assim a Velha Revolução foi contada, recontada inúmeras vezes no passado, e será muitas vezes no futuro. A releitura dos fatos podem fazer de Robespierre um líder inconteste, incorruptível, idealista a um sanguinário ditador que mandou quilhotinar até os que o ajudaram a subir no poder no Período do Terror. O mesmo vale para tantos outros personagens históricos avaliados e reavaliados, como se Dom João foi um covarde ou um hábil negociante diante do poderio britânico. Ou se Dom Pedro era um líder de uma jovem nação ou um déspota  vestido com a fantasia de um liberal. Todos os historiadores analisam os fatos e como os jornalistas, primeiro os fatos, depois formam opinião e interpretação dos acontecimentos históricos. Isto faz parte da estrutura das ciências humanas e de sua imensa riqueza. Só não vale manipular sobre a teoria que diz que a Terra é plana ou o nazismo é de esquerda.

Heródoto Barbeiro é editor-chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.

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