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E o vento continuava naquela tarde azulada de outubro.

O menino sentado no degrau da porta da cozinha olhava o Capim Gordura se deitando ao receber rajadas violentas e depois recobrando o equilíbrio dançando como chamas de fogo amareladas.

As copas das árvores ao redor de sua casinha também chacoalhavam frenéticas e o bambuzal próximo à bica d’água no fundo do terreiro quase tocavam o chão, como varas de pescas fisgando enormes Bagres bigodudos.

Lá adiante na estradinha próximo à ponte de tábuas sobre o ribeirão podia ver uma enorme nuvem de poeira vermelha que subia ao ar depois se espalhava encobrindo os campos e algumas vacas que pastavam alheios ao vento e à poeira.

No céu nenhuma nuvem passando, a não ser um Gavião-carijó que lutava batendo rapidamente suas asas para conseguir vencer a barreira que soprava sobre suas penas, voava à esmo, ou melhor, voava à mercê do vento, não se importando para onde ele levasse.

O menino continuava sentado na porta da cozinha e observava as obras do vento. Tudo parecia passar rápido, tudo era barulhento pelo sopro uivante e foi aí que o menino teve uma ideia.

Correu para dentro de casa, passou pela mãe que passava um café no fogão de lenha, entrou em seu quarto com o chão de terra batido. Em baixo da cama, o menino procurou no meio de seus brinquedos, bolas de meia, caminhões de plástico, estilingue e muitos bonequinhos de madeira, seu papagaio azul que fizera no início do mês, mas que poucas vezes teve oportunidade de empinar.

Na janela do quarto, as madeiras rangiam com as pancadas do vento.

O menino saiu para o terreiro com o papagaio azul de rabiola feita com tiras de jornal, desenrolou um pouco de linha da lata de óleo vazia e correu pelo quintal em meio aos pés de laranja e limão cravo que foram plantados próximo à porta da cozinha.

O papagaio alçou voo e a linha era descarregada rapidamente, o vento forte levava o papagaio cada vez mais alto, porém, quando o menino percebeu que a linha estava prestes a acabar, segurou a lata, e a linha deu um tranco forte que arrebentou próximo à sua mão.

Correu o menino tentando agarrar a linha que subia tão alto quanto o papagaio que se perdia no céu com cambalhotas ao sabor do vento.

O menino voltou a sentar-se na escada da porta segurando a lata de óleo vazia e sem linha. Observou novamente o Capim Gordura, o bambuzal, a poeira, o gavião e lá adiante, bem longe observou o papagaio sumindo entre as nuvens daquela tarde azulada de outubro.

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores - rodrigojacutinga@hotmail.com

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