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A marreta também é criativa. Uma pequena fábrica de refrigeradores estava em apuros. Situada na província de Shandong, na China, vendia cada vez menos. Tinha dificuldades na produção, distribuição dos produtos e financiamento. Tudo  levava a crer que em breve fecharia as portas e seus empregados ficariam na rua da amargura. Até a chegada de Zhang Ruimin, um jovem diretor de 36 anos, nomeado pela prefeitura local para dar um jeito na  empresa. Era tudo ou nada. Juntou a equipe de 76 gerentes e mandou perfilar 77 geladeiras em um galpão. Diante do olhar assustado de todos pegou uma marreta e destruiu uma delas. Depois pediu que cada um destruísse uma. Depois disso, em 25 anos, a empresa de Shangdong se tornou na maior produtora mundial de geladeiras. Ela aumentou o seu portfólio em 19 novos produtos da linha branca e se tornou a quarta maior fabricante do mundo. Essa história é o que Ben Mc Lannahan chama destruição criativa.

Imagine um país que precisa de mudanças profundas no seu sistema político, entendido em sua amplitude social, jurídica e administrativa. Certamente uma marreta não destruiria o arcabouço legal, jogaria tudo por terra e aí apareceria um salvador da pátria para construir tudo do zero.  Nenhum dos que se  locupletam com o antigo regime se apresentariam para pegar uma marreta e derrubar instituições que os beneficiam, não importa em que campo. O exemplo da fábrica de refrigeradores  não serve para se construir uma sociedade pela sua complexidade de atores e interesses. Ainda assim a sociedade pode almejar transformações que  aprofundem a democracia, distribuição de riqueza, segurança pública, educação e saúde de qualidade e outros requisitos da cidadania. É possível que essas mudanças sejam gestadas nas assembleias – Congresso, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais -  eleitas diretamente pela população? O primeiro obstáculo a ser vencido é a qualidade dos eleitos que se perpetuam  no poder graças ao sistema vigente e o baixo nível de politização da população. Esta realidade é atualíssima e as mudanças almejadas para se atingir esses objetivos andam em ritmo lento. Vez ou outra dão um passo quando há pressão popular para tanto. E ela é muito escassa.

Deitar a atual constituição abaixo e redigir uma nova seria o caminho ? Quem teria o poder legítimo de convocar uma assembleia constituinte exclusiva ? Isto nunca existiu no Brasil. Todas as constituições republicanas foram originadas de congressos constituintes, ou seja, por pessoas que ao mesmo tempo eram deputados federais ou senadores. Inclusive a atual .  De manhã constituintes, à tarde legisladores. É provável que os ambientes se misturem uma vez que são os mesmos protagonistas. Essa proposta já foi ventilada várias vezes e há uma resistência grande de certos setores. Uns porque acreditam, sinceramente, que a atual constituição é adequada a sociedade brasileira. Outros porque avaliam o risco de perder privilégios que se consolidaram ao longo  do tempo. O que será que o cidadão, o pagador de impostos, a pessoa que viaja em péssimo transporte público, tem atendimento rastaquera nos centros de saúde e vê os seus filhos saírem da escola sem entender o que leram, pensa disso? Inúmeras pesquisas são veiculadas todos os dias na mídia  social e tradicional sobre os mais diversos assuntos. Isto é bom para auferir quais são os sonhos e  opiniões  da população. Curiosamente, até agora, não se perguntou se o pais precisa de uma nova constituição ou se a  atual, com tantos artigos e mais de uma centena de emendas é adequada a sociedade.

Heródoto Barbeiro é âncora do Jornal da Record News e ex-  apresentador do Jornal da CBN

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