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Leio uma crônica publicada há algum tempo em um grande jornal catarinense e um trecho me saltou aos olhos: “Que pena que as gaiolas estão estragadas, podias ter passarinhos só para ti.” Alguém disse isso porque o cronista tirou as portas das gaiolas para que os passarinhos viessem comer quando quisessem, sem prendê-los.

Infelizmente ainda há muitos “seres humanos” que pensam como quem proferiu a frase que transcrevi da crônica do Amílcar. Chamou-me a atenção o tema, porque ainda esta semana, ao pintar o muro da casa da minha cunhada, cuidei para não incomodar o morador de uma  casinha de passarinho pendurada perto do portão. Não vi se havia ovos, mas acho que havia, pois a passarinha aparecia de vez em quando e ela e outro passarinho cantavam maviosamente, a todos os pulmões. Poderia haver ovos ou, quem sabe, filhotes.

Para que prender os passarinhos, se eles vêm cantar para a gente, graciosamente, se respeitarmos o seu direito de voarem, livres? Na minha casa eles vêm cantar no telhado, no jardim, nas calhas, na porta da cozinha. Até entram, às vezes, se não houver ninguém a vista, para pegar os restos da comida da Xuxu, nossa pinscher de dezenove anos, que está cega e surda e acaba espalhando a comida para fora do prato.

De manhã, é uma cantoria só. Moramos na cidade, mas às vezes dá a impressão que a gente está no sítio. Como ter coragem de prender passarinhos assim?

Bem a propósito, estava hoje na casa de minha tia, no Estreito, e meu primo apareceu lá, também, com seu filho. E ele trazia o que, com ele? Uma gaiola com um curió, que ele leva a todos os lugares aonde vai. E o passarinho cantava, como cantava. Maviosamente, maravilhosamente. Eu não falei nada, mas lembrei das gaiolas “estragadas” do Amílcar e uma tristeza imensa invadiu-me. Será que há quem pense que os pássaros cantam por estarem felizes, dentro de uma gaiola? Que terá feito aquela pequena e bela criatura para merecer a prisão? Sei que o primo não faz por mal, ele é um bom menino, a intenção deve ser proteger o pássaro, até. Mas não se pode tirar a liberdade de um ser vivo, assim, sem mais nem menos.

O ser humano é complicado. Por que tolher a liberdade de passarinhos inocentes? Apenas porque cantam magistralmente?

Luiz Carlos Amorim - Escritor, editor e revisor, Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, com 37 anos de trajetória, cadeira 19 na Academia SulBrasileira de Letras. http://luizcarlosamorim.blogspot.com.br – http://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br
 

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