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É da nossa natureza lutar pelo pão. Ou tomá-lo, por qualquer modo. Se tivermos de praticar um pequeno delito, que nos permita ser preso e dormir na cadeia, praticaremos. A fome fala mais alto que qualquer prurido moral. Os animais irracionais parecem saber disso; predam, atacam inclusive os da mesma espécie. As causas são fáceis de constatar: o sofrimento da falta de alimentos e o instinto básico de sobrevivência.

Se estivermos desempregados, e nossa mulher e filhos passando fome, cometer um crime, suportar as agruras dos miseráveis cárceres brasileiros, mas ter condições,  se recolhemos ao INSS, de receber o auxílio-reclusão, não titubearemos. Iríamos até para as galés francesas, suportadas por Jean Valjan. Também pelo pão. Literalmente, por um pão. Dezenove anos de trabalhos forçados, e depois os acontecimentos imprevisíveis, cuja narrativa classificou Victor Hugo como um romântico. A miséria, porém, era um fato, a aristocracia e a Igreja foram, em certo momento, superadas por Napoleão. Contudo, Bonaparte governava para a burguesia e oprimia os pobres. Estes, como nós, na mais baixa escala da sociedade, procuramos, sem encontrar, um governo que nos represente. Nunca a miséria dos trabalhadores foi romântica, mas a maioria dos governantes e economistas contém sua imaginação sobre nossas vidas.

Sabemos que o Brasil não é pobre, é desigual. Sabemos que enquanto vegetamos em nossas casas de madeira em sítios chamados favelas, prédios opulentos e lindos são erguidos. Os bancos dão dinheiro à classe média, cobram juros altos, mas eles vão tocando. Quanto a nós, temos medo de entrar em bancos, até de pensar em bancos. Humildementes, vamos lá para receber nossas aposentadorias salário mínimo ou a bolsa família.

Se pudermos enganar nossos patrões e patroas, para que nos mandem embora, receberemos o seguro desemprego. Nesse tempo, faremos bicos ou não faremos nada, para recuperar nossas forças maceradas. E, assim, vamos vivendo, como Deus quer, neste mundão que ele criou. Tristes, mas resistentes, porque nossos pais nos ensinaram a ser valentes neste enorme país.

Como poderemos votar a não ser em quem não nos persegue e nos dá assistência? Um homem que passou o que nós passamos, fez-se metalúrgico, sindicalista para nos defender, e tornou-se o Presidente da República. Sim, o Presidente da República. Um ricaço que era de seu time, chamado Suplicy, convenceu-o de que é dever do governo nos assistir nas necessidades. Pronto, pelo menos não morreremos. É melhor sobreviver assistido  que morrer. Perguntem a eles se querem morrer e, pior, de fome... Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, o filho sempre aprovado na escola, ainda que não saiba nada, o que mais? Não fomos nós que fizemos essas coisas. Dizem que o país precisa se desenvolver. Bom, mas e nós, como é que ficamos? Terceirizados? É um nome bonito. Quanto ganharemos? Não queremos muito, mas precisamos fazer feira, ter onde morar, de aluguel ou na Minha Vida.

Como não votar, repetimos, num homem que nos dá tudo isso? Há quem diga que isso não leva a lugar nenhum, que tem uma história de ensinar a pescar, não receber o peixe de presente. Também dizem que um dia tudo pode estourar. Mas já estamos esculachados desde que nascemos. Têm uns meninos aí, nós não entramos nisso, são nossos filhos, que conseguem uns revólveres, e tiram na marra relógios, dinheiro, joias das madames, muitos deles nos trazem dinheiro e vivemos melhor por algum tempo. Muitos são mortos pelos coxinhas fardados, mas fazer o quê, a vida é assim. Melhor essa desgraça, junto com alguns dias felizes, que o colega de São Bernardo nos dará. Os outros nada nos deram, nunca, salvo em alguns momentos de um tal plano real.

Dizem, ainda, que ele deu muito mais para empresas e corruptos, porque não tem como governar sem ser assim. Problema deles. O que importa é o prato de feijão e arroz em nossa frente. O mundo não nos importa, só o que está cá dentro de nossa porta.

É o nosso destino de ferro, por que mudar time que está ganhando? Por isso votamos no homem. Todo dia vemos na TV a tal corrupção. Dizem que foi ele que provocou a maior corrupção no país. Não sabemos, são coisas de entendidos. Mensalão, lava-jato, Petrobrás. Ele parece que também tirou umas casquinhas. Coisa de nada e a dona Marisa morreu.  Delação premiada, parece que é dinheiro dado a dedo-duro. Isso sempre existiu. Existe um monte de "caguetas" aqui na favela.

Tá ruim, mas tá bom. Por que não votar no homem?

Amadeu Roberto Garrido de Paula, é Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados - bruna@deleon.com.br.

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