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A cidade ficava nas montanhas e não era nem grande nem pequena. De todo modo, distante de grandes centros, todos os fatos humanos e não humanos eram diariamente conhecidos, em poucas horas. Bastavam os comentários auriculares e a inevitável repercussão na única rádio local.

A estranheza mais comentada se referia ao homem que amava só. Chamava-se Orion, não era a sinonímia com o planeta que atraía as atenções, mas seus modos singulares. E ninguém percebera que suas peculiaridades pessoais e incomuns se deviam a um amor aparentemente unilateral.

Eis que Orion, ao perceber que um velho amigo médico já havia arrumado todas as malas para partir  ao etéreo, resolveu contar-lhe sua vida mágica. Era cósmico e não tinha a mínima ideia de como aportara a este mundo. Sabia que semelhantes a si bateram a outros sítios universais, porém sem nenhuma ideia de tempo e de espaço. Isso depois de experiência de origem.

Nesta, experimentou o amor, algo que se denominava sem palavras entre aqueles seres primevos do cosmos, mas que Orion traduziu ao médico para compreensão de sua história. Nem todos os habitantes metafísicos daquele primeiro mundo imaterial viveram aquela experiência, mas ela estivera presente num bom número. Fora a raiz de tudo quanto, nos planetas que proliferaram, tomaram o nome de amor ou equivalente, entre as duas espécies duais que criaram todas as origens, salvo as delas próprias, desconhecidas. Nossas felicidades, em especial o canto, eram seu eco; até mesmo nossas delícias do paladar.

Essa experiência tinha como principal característica a onisciência, a onipresença e perfeita comunhão intelectual entre ambos os seres que se envolviam. Orion era partícipe de uma jovem, os nomes eram muito pouco importantes. Somente aqui ele recebera esse registro nominal dos pais, que se foram logo, deixando aos cuidados de uma tia e com uma pensão que o livraria do suado mundo do trabalho braçal. Por isso, dedicara-se desde cedo à literatura e era possuidor da quase totalidade das obras que nos enriqueceram, desde o século IV AC até meados do século XVII, em nosso habitat, que correspondia à experiência cósmica, como dita, sem tempo e espaço. Tempo e espaço eram exclusivamente nossos.  É curioso que todos os que visitavam a biblioteca de Orion não percebiam que, dentre seus livros, nenhuma havia sido composto depois daquela época de nossa história. Logo, todo seu saber literário, que sabiam ser extenso, era assim limitado pelo tempo deste planeta.

Orion disse ao médico que seu amor entre ele e a jovem, com as características mencionadas, não tinha intervalos. Dialogavam, acoplavam-se, beijavam-se e também dormiam, mas, nesses momentos de descanso, tinham os mesmos sonos e os mesmos sonhos. Sua compreensão recíproca era total. Ao andar sempre juntos, por vezes, involuntariamente, tropeçavam um no outro, o que em seguida importava num sorriso de penitência e perdão. Sorriso recíproco, ligeiro e doce, que os unia ainda mais. Por vezes gargalhavam, provavelmente em razão de algo insólito às suas razões, ou cheio de humor, porquanto aquele mundo era essencialmente bem humorado. Assim se passavam os dias, sem a menor necessidade, apenas com a passagem de um tempo que não era tempo. Era o que causava estranheza ao povo serrano.

Uma grande explosão planetária modificou radicalmente aquele universo. Os monstros do tempo inimigo e dos pontos espaciais se apoderaram daquela existência, separaram os átomos que formavam o conjunto de homens e mulheres únicos e harmônicos e geraram o que conhecemos como sofrimentos; em diante, suas energias eram um só: agir como agiam e superar os inimigos para se reencontrarem.

Alguns alquimistas sabiam disso e assim identificam a raiz do amor. Orion veio à terra. Sua luz companheira não o localizava entre os astros e vice-versa. Daí suas condutas estranhas. Falava consigo mesmo, beijava, andava como estivesse abraçado a uma mulher, sorria com um sorriso cativante e gargalhava. Morava só e não permitiu, em toda sua vida, um único intruso em seu quarto de dormir. Havia mulheres que se aproximavam dele, pois era belo, e, supunham, aquelas esquisitices podem ser superadas por um bom trabalho psicológico. Entretanto, ele se bastava, muitas choraram, mas nenhuma delas tinha a mínima semelhança, espiritual e física, com a companheira cósmica. Fisicamente, ela compartilhava algo entre o amor e amargura, magra, olhos pretos muito próximos e profundos, fisionomia fina que denotava nenhuma tendência para divergir asperamente e idêntica, "mutatis mutandis", a Orion. Ambos tinham lucidez de que o único escopo era o reencontro e não havia desespero pelo demora, pois o tempo não os destruíra em seus espíritos. Mantinham-se, enquanto isso, em dois corpos que dialogavam consigo mesmo, e que antes era um só.

Um dia, como todos os habitantes da terra, Orion morreu. Praticamente toda a cidade foi ver seu corpo no caixão, porque sentiram um indescritível vazio. Era belo na morte e sua fisionomia exibia o sorriso singular de quem se encontra na iminência de um reencontro.

Amadeu Garrido de Paula, é Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados - bruna@deleon.com.br

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