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O ato mais drástico, que somente o animal humano (e somente ele, na fauna), podem praticar: extinguir sua própria vida.

Em "Aliás", Cultura,  do "Estado", neste fim de semana, Paulo Nogueira nos dá importantes subsídios sobre o tema.

Os escritores  de ontem não o consideravam tema a ser desenvolvido. A partir do momento em que a história voltou-se aos problemas da individualidade - tão ou mais sensíveis que os problemas sociais - provavelmente sua matéria prima, o suicídio ganha, a trancos e barrancos, seu lugar na pauta científica e literária. Citam-se pelo menos duas obras. Muito pouco. Pudera, diria La Rochefaulcauld:  duas coisas não conseguimos olhar diretamente: o sol e a morte.

O mal da auto-extinção varreu o mundo dos homens e mulheres inteligentes, sensíveis, em geral dados à literatura: Kleist, Maupassant, Paul Lafargue, Camilo Castelo Branco, Stefan Zweig, Montherland, Primo Levi, Cesare Pavese, Arthur Koestler, Mishima, Essenin, Maiakovski, Hemingwuay (infelizmente os atrativos etílicos do "La Bodeguita" foram insuficientes), Sylvia Plat, David Foster Wallace, Virgínia Woolf, sem falar nos VIPs da antiguidade e os etc. Entre estes, os indiretos: a lista não inclui o extraordinário Poe.

No mundo de hoje, a cada 40 segundos alguém comete suicídio. Profundamente enfermo. Aumenta o número quando um grande gênio ou personalidade o pratica. Osmose pelo trágico, provavelmente mais forte que pela felicidade. E o inconsciente coletivo, que guarda as mazelas, não vem à tona para ser administrado e mata.

Talvez o embate entre o egoísmo e a solidariedade social possa dar uma explicação. Saint-Exupéry em uma de suas histórias verdadeiras, o avião despencado sobre um imenso universo de gelo, arrastando-se, no extremo pretendeu render-se: reuniu forças ao pensar em seus entes amados. Foi salvo. A responsabilidade social impôs-se sobre a tendência pessoal. Muito próprio de quem sabia que viver era cativar... Relatou-me alguém simples o episódio de que sua prótese em perna amputada, dado um atropelamento já na velhice,  que lhe provocava dores lancinantes quando apertava insuportavelmente, endereçou olhar fixo e angustiado a um revólver. Sua neta, ao vislumbrar tudo, simplesmente disse: "- Não faça isso Vovô". Até hoje ele passeia pela cidade, amiúde de braços com a neta.

Ignoramos se a vida eterna é um sono sem sonhos, se há dez virgens nos aguardando ou se  maravilhas nos aguardam, sobretudo se temos consciência de que procuramos ser justos nesta vida. Continuemos como tal, a alegrar nossos parceiros leais, ainda que sejamos agravados. 

Por isso, não permitamos que a osmose do aniquilamento ou o perverso inconsciente coletivo nos leve. Lembremo-nos da consciência do autor de "O Pequeno Príncipe" e da lição da neta de meu amigo. O sofrimento não será só nosso e momentâneo. Será de muitos, que precisarão encarar a vida como ela é. E cuidem da depressão; não é vergonha nenhuma e tem cura.

Amadeu Garrido de Paula, é Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados - Blog Amadeu Garrido de Paula   -  bruna@deleon.com.br

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