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Artigos e Opinião 05/09/2017  08h56

Poesia proibida

Equivocam-se os redutores da poesia. Em geral, são poetas e críticos. A poesia seria uma espada política. Nela não haveria lugar para o poeta afundar seu dedo sobre a terra e revirar o húmus. Não raro, o esterco abominável da política que não deveriam os demais amantes da linguagem revolver e conhecer. A poesia é panfleto para quem não acolhe em seu espírito o holismo relacional, o universo quântico.

Os que realizam a escavação linguística, poetas, prosadores, contistas, romancistas, ainda que indiretamente apontem as injustiças, os abismos classistas, a indiferença de governantes em relação aos pleitos do povo, deixam em nossos complexos neurais impressões muito mais profundas que os panfletos, retos e diretos. Isso porque a gerência da polis é internação do povo e a vida social é emanação das palavras, que nossas gerações antigas tiraram do imaginário, do acaso, da imperiosidade da convivência, da necessidade de dar a uma flor que penetra em nossa sensibilidade o nome que registra com mais proximidade o fenômeno de nossa existência holística.

Observamos o que consta acima em decorrência de infundadas oposições dos que não levam em conta o homem no centro do processo político; ele é apenas um instrumento à realização de propósitos genéricos que proporcionariam algo abstrato, a humanidade, dentro da qual  estaria contido. É o primeiro passo para os regimes ditatoriais e para as democracias em que a governança ilude os governados por meio de palavras ocas, como a nossa, brasileira de 2017. Não creio em bons governantes que não sejam, antes disso, bons homens; os impregnados de ódio jamais realizarão o necessário à sociedade governada.

O dualismo antagônico que gera o caos à sociedade brasileira não é de hoje. Vem de longe na literatura. É certo que tivemos uma ditadura militar a ser combatida, também, pela verve literária, mas não é menos verossímil que ela tenha sido abreviada menos pelas músicas de Chico Buarque do que pelas canções de Caetano e Bethânia. Hoje explode em movimentos sociais rivais, nas ruas dos quebra-quebras; o mais bem intencionado governante, o homem mais puro que venha a ser eleito, será o inimigo, posicionado de um ou outro lado. Assim, nosso destino será o abismo.

Nossos inesquecíveis Ferreira Gullar e Affonso Romano de Santana, por exemplo, formaram a coluna dos "políticos". Em "Não há vagas", exprimiu-se Gullar: "O poema, senhores, não fede nem cheira. Não há vagas". Referia-se à inexistência de vagas, na poesia, aos trabalhadores de barriga vazia, como se os poemas só tratassem de canduras. Outros disseram que os brasileiros modistas adotaram o estilo "borgiano" - de Jorge Luis Borges -. Ocorre que Borges, ao tornar um objeto, um mero fato, em poesia, deu-nos o sentido holístico que compreende tudo, inclusive a política e a injustiça. Ou é "apolítico", em "Entardeceres"?:

"A clara multidão de um poente exaltou a rua,

a rua aberta como um vasto sonho

para qualquer acaso.

O límpido arvoredo

perde o último pássaro, o ouro último,

a mão esfarrapada de um mendigo,

agrava a tristeza da tarde."

                                     
Descumpem-nos os engajados, mas em seus, nos nossos poemas, moram todos.

Amadeu Roberto Garrido de Paula, é Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.  daniel@deleon.com.br

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