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Já se disse infeliz do povo que precisa de heróis. Mas parece que Deus reservou a muito poucos iluminados suas tarefas de mudar a história e o homem.

Lula não está entre eles.

Como não estiveram todos aqueles que se cercaram de uma estrutura humana burocrática para, ao fim e ao cabo, vender ilusões, ou idealismos inconsistentes.

Os líderes bolchevistas venderam o idealismo de Karl Marx que, por sua vez, encampou o idealismo de Hegel, um dos maiores equívocos da filosofia moderna; o processo das ideias, uma continuidade imperecível e inevitável de teses, sínteses e antíteses, que viriam à luz da vida inevitavelmente, espiritual (Hegel) ou material (Marx). Mera formulação arbitrária de metafísicos, embora supostamente traduzida para a realidade política, mostrou, na extinta União Soviética, sua inanidade. O arremedo de filosofia, ou nem isso, da supremacia racial de alguns, caiu, depois de produzir os maiores sofrimentos da humanidade, na Alemanha nazista.

Aquela reserva divina de um papel na terra, como dissemos, ficou com muito poucos. Jesus, Buda, Maomé, no campo religioso-espiritual; na vida política,  Mahatma Ghandhi, Nelson Mandela e raríssimos.

Apesar da vontade equivocada de seus prosélitos, Lula não figura entre os heróis mencionados, que somente se caracterizaram pelos exemplos da vida incomum e exemplar.

Lula foi levado por seu empático irmão, Frei Chico, meio que arrastado, à burocracia sindical brasileira. Gostou do que lhe foi reservado. Trocar o chão da fábrica pelas salas amenas do prédio do Sindicato. Trabalhar sentado e não em pé, eis um dos anseios dos jovens operários de minha geração. Fazia toda diferença. Não que os sindicatos não sejam importantes, mas perguntem a um sindicalista se é melhor "voltar à produção", como dizem.

Cresceu naquela burocracia, por sua inteligência e sagacidade política inegáveis. Mas as históricas greves de que se jacta não foram produto de sua iniciativa principal, como diz. Seguia grupos de líderes operários. Como relembra Tuma Júnior acerca daqueles episódios transmitidos pela oralidade, nas assembleias de milhares era um "tertius": oradores carismáticos sustentavam duas oposições antagônicas (continuidade das greves ou acordo). De um lado Osmarzinho, hoje advogado, Dr. Osmar; e outro, Enilson Simões de Moura, o Alemão, considerado o mais candente insuflador das massas pela ditadura militar. Em seguida, seguia o rumo dos aplausos dominantes.

Essa sagacidade o fez Presidente da República. De um lado, o discurso para os trabalhadores. De outro, o compromisso com o poder econômico que o levou à presente ruína. Se a democracia se degenera em demagogia, como dizia Platão, a liderança de um povo se converte, não raro, em ralo populismo, fundado na simploriedade e ignorância das massas.

Agarrado aos dois galhos, tornou-se Presidente da República. Os desassistidos, que passaram a ter o mínimo, por programas assistencialistas, num momento internacional favorável à economia brasileira, deram-lhe 80% de aprovação no final do mandato. Mas as manchas dos compromissos assumidos com o poder econômico ficaram. E, mais dos que os compromissos, suas fraquezas ante as tentações da mudança de vida, própria e de seus familiares. Não iria favorecer àqueles compromissos, sem beneficiar-se. Seria considerado um ingênuo chapado se depois da Presidência voltasse ao Sindicato e às antigas agruras. Nenhum dos seus o compreenderia, assim como ocorreria com os operários que se fizeram parlamentares do Partido dos Trabalhadores. Sob tal "ethos", correu solta a corrupção, como jamais vista em nossa história; deu no que deu, a classe operária e as esquerdas foram ao paraíso e ao inferno.

No trágico momento de sua prisão, juridicamente incontestável, veio o discurso de Gandhi e Mandela, distorcido por reptos, denúncias inconsistentes aos inimigos e apologias intercaladas de violências, que não convenceu a não ser aqueles que simplificam o processo político e ainda prestigiam a luta de classes, a "mobilização" dos explorados, como caminho para criação da sociedade que todos desejamos, mas por meios racionais: da liberdade e da justiça social.

Seu cárcere, muito mais cômodo, não é, porém, ocupado pela nobreza essencial que elevou Nelson Mandela à condição do maior político do século, o oposto à fraude que procurou consagrar-se no Brasil.

Amadeu Garrido de Paula, é Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados - bruna@deleon.com.br

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