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Um canhoto e um destro têm a mesma ideia de passarem um final de semana no interior após estarem de saco cheio da correria maluca da cidade grande. Pretendiam desfrutar da tranquilidade e segurança de uma pequeníssima cidadezinha pacata e acolhedora. Após descerem na rodoviária da cidade vizinha ao destino, o canhoto e o destro que até então não se conheciam teriam que pegar um taxi para terminarem de chegar à pequenina cidade, já que não haveria mais ônibus para àquele destino naquele dia.

O destro levantou o braço direito ao mesmo tempo que o canhoto levantou o braço esquerdo. O taxi parou e um ficou olhando para a cara do outro. Quando o taxista perguntou para onde iriam e descobriram estarem indo para o mesmo lugar, decidiram dividir o taxi, seria mais sensato e mais barato, é claro.

Mas aí é que começa a polarização do problema.

O taxista puxa conversa:

- Vocês viram só? A gasolina subiu de novo essa semana.

O canhoto comenta na hora:

- Culpa desse governo incompetente de bandidos...

O destro retruca indignado:

- A culpa é do governo ladrão anterior que atrelou os preços ao mercado internacional.

O taxista percebendo que os ânimos poderiam se exaltar tenta mudar de assunto:

- Ah, mas pelo menos o dia está bonito. Olha esse céu azul...

O destro é sarcástico:

- Melhor azul do que vermelho maldito...

O canhoto não se faz de rogado:

- Pior seria aquele verde amarelo sujo que emporcalhou as cores do país...

Quando o taxista percebeu o ódio nos olhares de seus passageiros. Colocou uma musiquinha na esperança de que aquela pequena viagem terminasse logo. 

Entretanto, para entrar na cidade havia uma encruzilhada com dois caminhos. Um levava direto para o centro e outro passaria por outros bairros. O motorista parou o carro e perguntou inocentemente:

- Vamos para a direita ou para a esquerda.

Pronto! A confusão estava armada.

O destro exigia ir pela direita, dizendo que era o caminho mais curto, mais prático e com certeza era o caminho correto.

Já o canhoto não iria por outro caminho que não fosse o da esquerda, passando pelos bairros, conhecendo o povo do local, se inteirando com os aspectos do lugar.

O destro chamou o canhoto de ladrão de taxi e que não admitiria mais dividir o veículo com um comunista, inclusive pagaria a corrida na totalidade para não dividir as despesas, já que dividir era coisa de socialista.

O canhoto entoou palavras de ordem dizendo que não aceitaria as ameaças e tampouco seria intimidado por um repressor ditatorial.

O canhoto e o destro saíram do carro e estavam prestes a se atracarem desferindo palavrões um ao outro e destilando ódio transvestido de ideologias imbecis.

O taxista aproveitou a ocasião, deu meia volta e deixou os dois se ameaçando e se ofendendo no meio da estrada.

O canhoto e o destro ficaram batendo boca, ameaçando com paus e pedras e se por ventura algum desavisado passava por ali e oferecia carona, eles inventavam mentiras cabeludas um sobre o outro, afugentando os motoristas.

Estão até hoje se agredindo, se odiando, prejudicando um ao outro... e com isso, não vão a lugar algum. 

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores.

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