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Posso não ser um expert em informática, mas alguma coisinha sei resolver num computador. Dessa feita um amigo me pediu para dar uma olhada em seu micro que teimou em ficar uma tela azul no monitor e não sumia.

A casa era pequena e o computador ficava num quartinho minúsculo. Enquanto ligava o computador escutei um vozeirão que vinha da sala ao qual levei um tremendo susto:

- Você está louca! Não acredito que vai ter coragem de fazer isso?

Aquele berro me fez gelar, alguém estava discutindo na sala.

Meu amigo calmamente sorri sem graça:

- Não liga não. É só meu pai.

Tentei me concentrar novamente no computador e a tela azul no monitor quando novamente os berros são mais intensos:

- Sempre soube que fazia essa cara de santa, mas é uma... descarada!

Caramba! O homem devia estar muito irritado para estar xingando alguém dessa forma. Será que era sua filha ou quem sabe sua esposa?

A discussão na sala continuava com o homem xingando sem parar:

- Não acredito que você teve coragem de fazer isso com sua irmã! Ela sempre confiou em você. Esteve com você nos momentos difíceis!

Realmente a situação era delicada. Que chato estar justamente no meio de uma discussão de família. Meu amigo, entretanto, tenta me acalmar.

- Liga não. Meu pai é assim mesmo, costuma xingar por qualquer coisa.

Mas aquilo não parecia qualquer coisa, pelo jeito a irmã devia ter sacaneado muito a outra para o pai estar enfurecido.

- Agora me vem com essa cara de choro pedir perdão! Você não merece perdão sua lambisgoia! Merece é um castigo... uma surra!

Danou-se. O homem iria bater na moça, os vizinhos iriam chamar a polícia e eu ali naquela casa teria que dar explicações. Ser testemunha.

Finalmente consegui reiniciar o computador e ele volta ao normal.

Meu amigo ficou muito agradecido e eu não via a hora de sair daquela casa.

Ao passar pela sala, já esperando encontrar uma cena de discussão e choro, apenas vi um homem deitado no sofá da sala assistindo TV.

- Boa tarde. Você que veio consertar o computador do meu filho?

- Sim senhor, já está consertado.

Não tinha mais ninguém ali e o pai de meu amigo era tão lúcido e calmo.

Quando abri a porta da sala, acaba os comerciais da TV e a novela mexicana recomeça no SBT. Dois personagens estão discutindo na tela e o homem no sofá aponta o dedo para a TV. Ameaça jogar o chinelo no monitor e xinga sem parar a personagem má da novela:

- Traidora! Onde já se viu sacanear a irmã! ...

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores. rodrigojacutinga@hotmail.com

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