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Cultura 14/09/2020  10h43

Crônica: O Toucinho 

Pedrinho morou a vida toda na roça. Tinha 13 anos, filho único e praticamente sem amigos, pois sua casinha era tão isolada que de dias em dias passava alguém na estradinha. 

Frequentou a escola por dois anos, mas não continuou, preferia a lida na pequena lavoura junto de seu pai do que se enrolando todo com os números e letras. Seus pais que eram bastante xucros não ligaram por Pedrinho desistir da escola, achavam que ler e escrever não valiam nada para quem vivia de plantar e cuidar de animais. 

Pedrinho se sentia sozinho, sabia que seria muito difícil sair da roça e ir para a cidade porque os pais que já estavam com a idade avançando jamais arredariam os pés de lá e ele não abandonaria os dois sozinhos no meio do mato, sem energia elétrica, sem veículo e sem vizinhos. 

Já que arrumar amigos era praticamente impossível, Pedrinho se tornava amigo dos animais. Foi assim que o gato preto folgado e cotó se tornou o confidente, os dois cachorros vira-latas se tornaram os companheiros de pescaria e o ganso pescoçudo se tornou o amigo de pega-pega. 

Mas faltava aquele amigo para todas as horas, aquele amigo que ficaria ao seu lado conversando nas caminhadas pelo mato, que almoçaria junto à mesa e dormiria no mesmo quarto. Seria um amigo quase irmão.  

Pedrinho arrumou esse amigo quando a porca Gumercinda deu a luz. Entre os porquinhos recém-nascidos, Pedrinho escolheu o menorzinho e mais rosinha, seu amigo/irmão. 

O batizou de Toucinho, nome um tanto quanto sugestivo, mas não é que o porquinho atendia quando o rapazinho o chamava pelo nome. 

Toucinho e Pedrinho brincavam juntos, ficavam horas conversando, é claro, Pedrinho falava e o porquinho apenas no seu roinc, roinc. 

Como é da natureza dos porcos, logo toucinho estava um leitão, gordo e porco, mesmo assim Pedrinho não largava o suíno. Podemos dizer que realmente surgira um amor de irmãos entre os dois. 

Toucinho crescia, ocupava espaço, porém sempre estava ao lado de Pedrinho à mesa no almoço e janta, dormia ao lado da cama do rapaz e só não tomavam banho juntos porque o porco corria. 

Quando Toucinho virou um porcão, os pais de Pedrinho que não estavam nem aí se haviam ganhado outro filho e decidiram vende-lo. 

O negócio foi fechado com o Agenildo, dono de um armazém numa vilinha daqueles cafundós. 

Pedrinho só soube da venda de Toucinho quando voltou à noite do riacho onde havia pescado lambari. 

Desesperado por perder o porco, Pedrinho selou o velho pangaré de seu pai e saiu para a vila. 

Ao chegar no bar do Agenildo, percebeu estar havendo uma roda de violeiros com comes e bebes. 

Sem delongas perguntou a Agenildo quase chorando: 

- Onde está o Toucinho? 

Agenildo sorrindo apanhou um prato de petiscos e ofereceu a Pedrinho: 

- Está aqui o torresmo. 

 Nota do autor: 

“Essa triste história me faz divagar sobre as incríveis metamorfoses que acontecem na natureza e ter a certeza de que tudo está intrinsecamente em equilíbrio nesse planeta ao qual habitamos. É assim que o girino se transforma em sapo, o mandarová se transforma em borboleta e o Toucinho se transforma em torresmo”. 

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores.

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