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Francineide já entrara na casa dos trinta anos e o desespero começou a tomar conta da moçoila. Precisava casar urgentemente. 

Todas as irmãs, tanto as mais velhas como as mais novas haviam se casado, algumas inclusive, já eram mamães; assim como as amigas de infância já casaram, tem umas até que casaram, largaram e casaram de novo. No entanto, a pobre da Francineide o máximo que conseguiu foi um namoro e noivado que durou onze anos, mas quando iriam marcar a data do casório, o noivo decidiu sair do armário e acabou fugindo com um vendedor de abacaxis que passava na cidade uma vez por semana. Depois disso nenhum dos dois retornaram, para infelicidade de Lucineide que perdera o noivo e dos moradores da cidade que ficaram sem os abacaxis. 

Foi então que numa atitude extrema, como último recurso, a solteirona ouviu os conselhos de suas tias carolas e apanhou o inocente Santo Antônio que ficava de boa na estante da sala, encheu um copo com água e sem dó nem piedade mergulhou o coitado de ponta cabeça dentro da água. 

- Só vai sair dai quando me arrumar um marido! – Ameaçava a irritada e predestinada Lucineide toda vez que topava com o santo boiando no copo ao passar pela sala. 

Passou dois meses, e quando o santo já começava a desbotar, Lucineide conhecera Juscelino, um sapateiro cinquentão que havia alargado um sapato de bico fino que não parava de apertar seu joanete. 

Como os dois estavam muito afim de casar (já que Juscelino era um divorciado que mesmo após três anos separado, ainda não conseguira se acostumar com a solidão) com apenas um mês e meio de namoro já noivaram e marcaram a data do casório para dali um mês. 

- Assim que eu me casar, prometo que tiro meu santinho de dentro da água. – Dizia e eufórica noiva já em contagem regressiva para enfim enfiar a aliança em definitivo no dedo. 

E o santo nem boiava mais, já estava totalmente encharcado de tanto ficar debaixo d’água. 

O dia do casamento foi um marco na cidade, enfim a última solteirona da família iria casar. 

Muita emoção na igreja, muita alegria na festança que acontecera num famoso clube da cidade com direito a banda de música e bufê chiquérrimo. 

Contudo, antes de partirem para a lua de mel numa famosa estância hidromineral com águas termais, a recém casada Lucineide dá uma passadinha na casa de seus pais e desvira o santo. 

- Viu só Santo Antônio, como prometi. Me casei e o senhor sai da água.  

O santo estava tão acabado que dava dó.  

No outro dia de manhã chega a triste notícia que o marido de Lucineide morrera na noite anterior. Segundo os relatos de um familiar, Juscelino foi entrar numa banheira de água quente no hotel na estância hidromineral, acabou escorregando, bateu a cabeça e morreu afogado. 

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores.  

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