Digite pelo menos 3 caracteres para uma busca eficiente.

Apesar de não fazer parte do grupo de risco aderi ao isolamento social a quase três meses, já que cuido de meus pais que estão com idade avançada. Digamos que coloquei ambos dentro de uma redoma de vidro. Minha mãe até que está bem, se comparado ao meu pai com seus 88 anos e suas comorbidades de estimação. Eu tenho 48 anos, caso queiram saber. Existe, portanto, quarenta anos de diferença entre eu e o meu pai!

E por mais que meu pai esteja próximo ao limite de sua expectativa de vida (talvez já tenha até ultrapassado) não pretendo apressar os fatos, definitivamente. Quem me dera ter super poderes para alongar a estrada, a perder de vista no horizonte longínquo.

Talvez seja preciso pavimentar com as próprias mãos, palmo a palmo, dia após dia.

Estou dando o melhor de mim, podem acreditar!

O fato é que viver em tempos de pandemia tem se revelado algo demasiadamente estressante. Haja paciência e fundo de reserva para suportar os reflexos desse prolongado isolamento social. Aliás, minhas economias evaporaram feito o álcool 70% que utilizo para desinfetar as mãos. Por outro lado, meu cabelo está de dar inveja à Rapunzel, adotei o pijama como uniforme oficial e não sei mais em que dia da semana estamos.

E foi nesse emaranhado de divagações, ruminando minhas dúvidas e incertezas, imerso na banheira da falência que o patinho de borracha imaginário sugeriu que eu poderia compartilhar a minha história para tentar vender o meu peixe.

Pois bem, em dezembro de 2019 eu havia publicado de forma independente um livro intitulado “Memórias de um motorista de aplicativo” e, desde então, estava muito feliz vendendo minha obra aos meus passageiros. Pois é, sou motorista de aplicativo. Mas o fato é que com o isolamento social não tenho exercido a profissão de motorista e tampouco vendido meus livros. Sou um cara das antigas, uma espécie de caipira cibernético, com pouca empatia nas chamadas redes sociais, mas entendi ser preciso tentar canalizar as vendas pela internet.

Antes que alguém me pergunte, recusei proposta de duas editoras. Não aceito essa

equação onde quem menos ganha é o escritor (bem menos, acredite). Estava contente com minha produção independente, vendendo livros para os meus passageiros durante o curto convívio entre ponto de partida e destino final, sem grandes ambições. Gosto da minha vidinha simples, sem maiores sofisticações. Mas o vírus chegou para desconstruir a rotina planetária, novidade nenhuma, todos sabem.

A história do livro é a seguinte. Eis que, no ano de 2017, por indicação de um amigo, resolvi baixar o aplicativo de motorista e experimentar a brincadeira. O curioso é que a idéia de escrever o livro ocorreu logo no meu primeiro dia de atividade quando peguei um passageiro que durante a viagem inteira foi empunhando uma pistola calibre 380.

Não se tratava de uma tentativa de assalto. Numa breve conversa descobri que o sujeito estava jurado de morte e apesar da situação um tanto quanto suspeita, o sujeito foi sempre cordial e em momento algum me senti ameaçado. Ao final da viagem meu passageiro até se desculpou ao saber ser meu primeiro dia como motorista. Fiz entender que estava tudo bem e em tom de brincadeira disse que não é todo dia que alguém trabalha escoltado.

Entendo que numa situação como essa muitos teriam desistido da atividade, mesmo se tratado de um caso isolado ou de uma excessiva sorte de principiante, digamos assim.

Mas eu pensei, se o primeiro dia foi assim, o que mais estará por vir? E não sei se fiquei mais empolgado com a possibilidade de escrever um livro ou se o meu entusiasmo foi pelo vislumbre do que ainda viria pela frente, provavelmente ambas as coisas.

Não é difícil ser motorista. Se você gosta de dirigir e gosta de pessoas já é mais de meio caminho para o sucesso. Claro que é preciso ter um certo jogo de cintura, pois lidar com pessoas pode ser muito bom ou muito ruim. Obviamente, existem passageiros bastante inconvenientes, assim como também existem motoristas desqualificados, como já me foi relatado por muitos passageiros. Meu consolo é saber que tais motoristas não duram muito tempo na plataforma, pois acabam excluídos. No caso dos passageiros não posso dizer o mesmo. Até entendo que são eles (os passageiros) quem sustentam a plataforma. Mas enfim, são dois pesos e duas medidas conflitantes no nem sempre justo mundo capitalista.

Seguramente, o que mais me fascina nessa atividade são as relações humanas. Pense bem, são passageiros de todas as tribos, independente de classe social, onde o carro se transforma num verdadeiro laboratório sobre quatro rodas e o motorista faz, por vezes, o papel de padre, psicólogo, confidente… Portanto, se você estiver aberto, receptivo, você aprende muita coisa, inclusive a ser mais tolerante, menos preconceituoso. Depende muito de como você encara a atividade, diria que do ponto de vista social pode ser um processo muito edificante. Digamos que encaro a atividade como uma maneira remunerada de convívio social. O relacionamento entre motorista e passageiro é uma verdadeira troca, mas é claro que nem todo mundo quer conversar e sendo assim, dirijo em silêncio.

Aproveito a oportunidade para citar alguns fatos citados no livro, como o caso de um aposentado que curou a depressão exercendo a atividade de motorista. Poderia, ainda, citar o alto executivo de sucesso que nas horas vagas transporta passageiros por puro prazer e ainda dá dicas de empreendedorismo. Ou o advogado, dono de um escritório de advocacia que percebeu na atividade a oportunidade de ter contato com pessoas fora do âmbito profissional de direito. Talvez seja uma forma de resgatar algo que se perdeu no meio do caminho. Passageiros vem e vão, mas são relações que, embora momentâneas, transcorrem de forma descontraída, de forma verdadeira e sincera, sem as segundas intenções que, infelizmente, se tornaram tão comuns no atual mundo das aparências e interesses camuflados. Afinal, nada melhor do que ser você mesmo.

Por essas e outras, considero a atividade um verdadeiro fenômeno que, de forma

despretensiosa, aproxima pessoas num contato real, ao contrário das redes sociais que promovem contatos virtuais no universo de selfies enganosas e comentários de

veracidade duvidosa. Uma conversa agradável, um aperto de mão, uma troca de olhares e um sorriso sincero valem muito mais do que uma curtida nas ondas da internet. Acho que posso afirmar que como motorista já fui pai, irmão filho e amigo.

De uma forma geral eu me divirto muito, dou muita risada com meus passageiros e

asseguro que os momentos de prazer e alegria são predominantes. Também me

emociono, já chorei com passageiras que precisavam desabafar. Já me apaixonei, levei calote, passei raiva, senti medo e, acredite se quiser, até convite para ser laranja eu já recebi.

Outro aspecto interessante dessa atividade é poder trabalhar no dia e no horário que me for mais conveniente, sem precisar cumprir metas e nem horários estipulados.

Atualmente contabilizo 14 mil viagens, mas já vinha, mesmo antes da pandemia,

diminuindo gradativamente meu tempo de direção. No entanto, não pretendo abandonar a atividade por completo, pois gosto muito da experiência. Quando ligo o aplicativo é sempre uma nova aventura, num anseio - quase infantil - de ser surpreendido com uma nova história. Diria tratar-se de uma expectativa instigaste e revigoraste. Além do fato de poder vender meu livro aos passageiros que são, antes de mais nada, os protagonistas de minhas histórias. Motoristas ou passageiros, sei que muitos se identificarão.

Todos nós somos, por conta das circunstâncias, passageiros e condutores da vida,

invariavelmente. São papéis que se alternam e nenhum dos dois é menos importante.

Ambos requerem alto grau de responsabilidade e comprometimento, independente da pandemia em que vivemos.

O coronavírus vai passar, não tenho dúvidas. Meus pais vão ficar bem, vou cortar meu cabelo e raspar a barba disforme que destoa de minha pessoa. Vou queimar meu pijama, voltar a trabalhar, interagir com as pessoas e vender meu livro pessoalmente, entregue em mãos, face a face, olhos nos olhos.

Saudades de um beijo e um abraço apertado. Como faz falta um simples aperto de mão.

Wilton Mitsuo Miwa é motorista de aplicativo e cidadão do mundo.

O livro está à venda na Amazon: “Memórias de um motorista de aplicativo” !

https://www.amazon.com.br/MEM%C3%93RIAS-MOTORISTA-APLICATIVO-Wilton-Mitsuo/dp/8554092015/ref=tmm_pap_swatch_0?_encoding=UTF8&qid=1583317225&sr=8-1 !!

Comentários:

Seja o primeiro a comentar!


Deixe seu comentário:

Aceita receber as novidades do Jornal União em seu e-mail?
* todos os campos são obrigatórios