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Cultura 19/06/2020  09h52

Poesia: As curvas

Vejo do alto minha cidade acabrunhada

prédios brancos parecem encardidos

os cremes parecem rubros envelhecidos

as arquiteturas fenecem como que mortas

o choro parece unânime e contido

os córregos parecem cursos de lágrimas

a imprensa se agita para despertá-la

mas suas notícias são amargas e vergadas

a um ramerrão em que se inserem  casmurras

matam-se os jornalistas para revigorá-las

o padre da capela de meu bairro acorda cedo

e se apega ao Novo Testamento

o antigo tornou cansativas suas lendas

em breve rezará a missa e precisa de um tema

o frentista, sempre alegre, arrisca uma piada

bem aventurados os pobres piadistas

porque deles será o reino deste mundo

o frio não corta mas ameaça

a lua se foi, meio envergonhada

de ter-nos iluminado por tantos séculos

e ver-nos olhando-a com olhos depressivos

mais do que milagrosas ciências econômicas

precisamos de novas cores inspiradoras

de novas culturas, novos amores e novas amizades

de pouco valem as estonteantes conquistas

propiciadas por ciências esquisitas

que criam ablações inimagináveis

e foram derrotadas por micróbios

escondidos à nossa espera,  os hospedeiros,

estalagens enfurnadas nas florestas

e o sol desperta levemente minha cidade

os crepúsculos são tristes

ao enterrar e ressuscitar os mistérios

que nos embalam

como passageiros de um trem nas curvas das mesetas.

Amadeu Garrido de Paula, poeta e ensaista literário, é advogado, atuando há mais de 40 anos em defesa de causas relacionadas à Justiça do Trabalho e ao Direito Constitucional, Empresarial e Sindical. Fundador do Escritório Garrido de Paula Advocacia e autor dos livros: “Universo Invisível” e “Poesia & Prosa sob a Tempestade”. Ambos à venda na Livraria Cultura.

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