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Perspectiva é de maior precarização do trabalho do professor da rede estadual; situação é ainda mais dramática para o professor temporário via PSS

A redução da carga horária de 50% das disciplinas de Sociologia, Filosofia e Arte no Ensino Médio do Paraná obrigará os professores da rede estadual a dobrar o número de turmas para as quais terá de dar aula. Para se ter uma ideia do impacto que a decisão do governo do Paraná tem sobre a condição do trabalhador e o reflexo na qualidade das aulas, basta fazer alguns cálculos.

Um professor efetivo com 20 horas, antes da redução, atuava em até oito turmas com duas horas-aula cada, ou seja, 16 em sala. O restante é hora-atividade (preparo de conteúdo e correção de provas, por exemplo). A situação que já não garantia qualidade vai piorar. Agora, com uma hora-aula o professor terá de aumentar para até 16 turmas. Para quem tem 40 horas, terá aumentada a quantidade de turmas de 15 para 30.

Se para o professor efetivo, a situação é ruim, para o professor contratado pelo Processo Seletivo Simplificado (PSS) é ainda mais dramática. “A precarização do trabalhador vai dobrar também”, afirma o professor Gustavo Ramires Fernandes, Sociologia, da rede estadual do Paraná. Ele é professor PSS. “Isso se ele [o professor] conseguir encaixar esses horários em muitas escolas.”

Fernandes baseia-se em dois fatores para afirmar que a precarização do professor PSS vai aumentar. Primeiro, não haverá carga horária cheia (20 ou 40 horas) para o professor temporário. Com a redução da carga horária de Sociologia, Filosofia e Arte, o professor efetivo também dobrou o número de escolas e turmas para as quais dará aula. Segundo, o custo do deslocamento desse professor por diversas escolas seja com veículo próprio ou transporte coletivo, sai do salário do professor, que já é baixo.

Fernandes contextualiza que o conteúdo para o aluno vai ser comprometido, porque a disciplina terá de ser ministrada em apenas uma aula. Ele cita ainda o fato de que se o dia da aula coincide com um feriado, haverá ainda mais comprometimento. Para ele, o processo de ensino e aprendizagem vai sofrer alteração significativa. Nas humanidades, usa-se muito material audiovisual como documentários para sintetizar conteúdos estruturantes. “Com uma aula por semana, o professor dessas áreas não vai conseguir passar um filme. Ele vai poder indicar.”

O professor afirma que a escola pública é uma instituição social que atende todos os tipos de classe, etnia, gênero e sofre a interferência de uma visão conservadora que transforma o espaço público em produto, em mercadoria. Ele critica a gestão do secretário estadual de Educação, Renato Feder, que – segundo ele – não tem visão social sobre a função da escola pública.

Sem debate

A professora efetiva de Sociologia Vani Espírito Santo, da rede estadual do Paraná, integrante do Coletivo de Professores (as) de Sociologia e Filosofia do Norte do Paraná e do Coletivo Estadual de Humanidades, afirma que os prejuízos não estão circunscritos aos professores, mas a toda sociedade.

“É impossível trabalhar os conhecimentos como deveriam ser trabalhados. A consequência direta será o desempenho dessas pessoas em concursos de vestibulares e Enem”, afirma Vani Espírito Santo. “Sem falar do aprendizado de conceitos básicos para refletir e se expressar na sociedade [que serão comprometidos].”

A professora aponta que a decisão do governo do Paraná em reduzir a carga horária das disciplinas de humanidades foi tomada sem consultas à comunidade escolar. Professores e estudantes não foram comunicados da mudança curricular. “Tomamos conhecimento através da mídia e das redes sociais”, afirma Vani Espírito Santo.

A vereadora Lenir de Assis, doutoranda em Sociologia pela Universidade Estadual de Londrina, afirma que a medida visa reduzir disciplinas que estimulem o pensamento, desenvolvam o senso crítico e formem cidadãos capazes de refletir sobre a própria realidade. “O objetivo, nesse sentido, é direcionar a educação de jovens para a formação de mão de obra”, destaca a vereadora.

Ela lembra que não é mera coincidência quando se avalia a história da educação, que mostra– em vários momentos – projetos e reformas do ensino com tendência ao tecnicismo. “não se trata de criticar o ensino técnico, mas de valorizar o ensino das humanidades, afetado por decisões com essa que reduz a carga horária dessas disciplinas.”

Moção de Apoio

Por iniciativa da Comissão de Educação, Cultura e Desporto e da Comissão de Seguridade Social, a Câmara Municipal de Londrina aprovou no último dia 25, uma Moção de Apoio ao movimento paranaense de professores dessas disciplinas, pelo retorno da carga horária das disciplinas de Sociologia, Filosofia e Arte. O documento foi encaminhado ao Coletivo Estadual de Humanidades, bem como à Assembleia Legislativa do Estado do Paraná, ao Palácio do Iguaçu e à Secretaria de Estado da Educação.

Reinaldo C. Zanardi/Asimp

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