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Uma grande história de amor, uma saga familiar que atravessa gerações. ‘Velho Chico’ narra o amor maior: pelo rio São Francisco, pelo Brasil, pela natureza e que vai se revelar na grandeza do sentimento entre Maria Tereza (Isabella Aguiar/ Julia Dallavia/ Camila Pitanga) e Santo (Rogerinho Costa/ Renato Góes/ Domingos Montagner). Do outro lado das margens desses amores habita a ganância, a ambição desenfreada, o coronelismo arcaico, ainda muito presente em nosso país: a paixão pelo poder a qualquer custo.

Amores proibidos, capazes de balançar estruturas antigas em uma jornada emocional pelo Brasil profundo. “É um reencontro com a brasilidade, com a história do nosso país e de sua gente, dos amores puros e dos desencontros, uma declaração de amor à nossa terra, contada com uma emoção brasileira, nossa! Um romance que começa na década de 1960 e desemboca numa atualidade cercada de contradições. Uma novela de amor, mas também emoldurada por uma crítica social”, destaca Luiz Fernando Carvalho, diretor da trama. Já o autor Benedito Ruy Barbosa ressalta que é uma história com alicerce na verdade. "Esse Brasil existiu e existe até hoje. Mas o principal são as histórias de amor. Aquele amor passional de ficção, sabe?".

Uma história que mostra a cultura arcaica dos coronéis, com suas fazendas produtoras de algodão erguidas muitas vezes em circunstâncias que oprimiram o povo nordestino. Nos dias de hoje, seus herdeiros formados em novas tecnologias do solo, habituados ao uso de novos procedimentos, buscam o reequilíbrio da natureza e, consequentemente, um mundo melhor e mais justo para todos. Essa é a nova geração de ‘Velho Chico’, chamada pelo diretor Luiz Fernando Carvalho de "admirável mundo novo".

O enredo do romance entre herdeiros de famílias rivais se entrelaça à trajetória de luta pelo renascimento do Rio São Francisco. A saga tem início no final dos anos 1960, na fictícia Grotas de São Francisco, e se estende até os dias de hoje. A briga familiar, que começou pelas águas e avançou pelas terras, perde o sentido para a nova geração, mas nem por isso a rivalidade deixa de existir e de impedir que antigos amores interditados pela família se reencontrem.

‘Velho Chico’ é uma novela de Benedito Ruy Barbosa, escrita por Edmara Barbosa e Bruno Luperi, com direção artística de Luiz Fernando Carvalho.

A trama - Primeira Fase

1968, Grotas de São Francisco

O velho coronel Jacinto (Tarcísio Meira) é um patriarca. Rico e ignorante, é dono de quase tudo em Grotas de São Francisco e comanda há muitas décadas a política e a economia local. Nem por isso deixa de cobiçar um pequeno, mas rico e fértil, pedaço de terra de uma família vizinha, a fazenda Piatã, do Capitão Rosa (Rodrigo Lombardi). A disputa por esse pedaço de chão é o estopim para a guerra que acaba atravessando gerações.

Jacinto, também chamado pelo Capitão Rosa de Saruê, é casado com Encarnação (Selma Egrei). Marcada pela dureza do tempo, ela carrega a sofreguidão de uma mulher que chora em silêncio a morte do primogênito, seu preferido, tragado pelas águas do Rio São Francisco em um dia de travessia perigosa. Jacinto insiste na franqueza daquela dor imensurável e genuína pela morte do filho, mas Encarnação jamais aceita dividir aquele sofrimento. Aquela dor é só dela.  

O único herdeiro do casal é Afrânio de Sá Ribeiro (Rodrigo Santoro/ Antonio Fagundes), que, amado pelo pai, mas preterido pela mãe, foi estudar em uma Salvador culturalmente efervescente, no final da década de 1960, e formou-se em Direito, mas vive às custas do dinheiro do pai.

O jovem é apaixonado por Iolanda (Carol Castro/ Christiane Torloni), cantora dos bares de Salvador. Uma mulher sem amarras e à frente de seu tempo. Ela se apaixona perdidamente por Afrânio, vivendo um amor idílico no Solar da família dele.

Na capital, Afrânio não tem ideia de como é a vida do pai na fazenda. Com a morte de Jacinto, ele é obrigado a enterrar também seus sonhos de liberdade, sua vida em Salvador e seu romance que lhe tirava do eixo. O destino o coloca em um caminho sem volta, e na bifurcação da vida ele decide levar adiante a saga do pai. Torna-se então o jovem coronel Saruê.

Afrânio e Leonor

Afrânio (Rodrigo Santoro) é excelente com as palavras, mas não está acostumado a realizar suas conquistas aos moldes do coronel. Entre assumir o posto e de fato encarnar a personalidade do pai, o jovem deixou as rédeas dos negócios escaparem. Não entendia nada de colheita e muito menos dos acordos que Jacinto (Tarcísio Meira) fazia. Mas, se não retomasse o respeito que o pai tinha com o povo daquela região, em pouco tempo perderia tudo.

Por isso decide acatar as ordens da mãe.  Encarnação (Selma Egrei) diz a Afrânio que ele deve fazer um percurso de reconhecimento dos parceiros de Jacinto por toda a região nordestina. É assim que ele conhece Leonor (Marina Nery), uma cabocla que lhe tira a razão. Leonor é filha de Aracaçu (Carlos Betão), dono de uma das fazendas da região.

A menina tem nos olhos a voracidade de uma onça. É inquieta, obstinada e exala sensualidade. Cresceu com o pé na terra, mas é também menina, doce e sonhadora. Quer sair dali, ter sua própria vida. Reza, suplica, faz promessa por um marido que cruze seu destino e ele por fim aparece. Afrânio chega na fazenda montado em seu cavalo. Para Leonor, é a visão de seu príncipe, que ela não vai deixar escapar.

O jovem coronel não consegue ficar imune àquele olhar. Muito menos àquela sensualidade tão natural. O desejo fala mais alto. Quando os olhares se cruzam, ela se rende: o coração palpita e a boca fica seca. O que eles não contavam era que Zilu (Veronica Cavalcanti), mãe da menina, já desconfiada, os flagrasse. E o coronel fica sem saída: ou casa ou morre.

O jovem Saruê volta já casado para Grotas. Encarnação quase enlouquece, pois tinha outros planos para o filho. Jamais consentiria aquele casamento. Queira a mãe ou não, ele teria seus herdeiros com a tal cabocla que lhe enfeitiçou. Afrânio se torna o novo coronel da região. O novo Saruê do sertão.

A estratégia de conhecer de perto os negócios de Jacinto dá certo, mas não é suficiente para aplacar o crescimento e a popularidade que Capitão Rosa (Rodrigo Lombardi) ganha naquele meio tempo. Afrânio perde poder, contratos e resolve comandar com as mesmas armas que o pai. Ali, de nada adiantava seu diploma.

Clemente (Júlio Machado) é quem faz o trabalho sujo. A mando de Afrânio, ateia fogo no depósito lotado de algodão de Capitão Rosa. O que esquenta ainda mais o ódio entre as duas famílias.

Maria Tereza, a filha de Leonor e Afrânio

Sete meses depois do “flagra”, Leonor (Marina Nery) dá à luz Maria Tereza (Isabella Aguiar), para desgosto ainda maior da avó, Encarnação (Selma Egrei), que culpa a nora por não conseguir dar um filho homem a Afrânio (Rodrigo Santoro). Foi um parto prematuro e encruado. A avó precisou praticamente arrancar a neta do ventre da mãe, sem se preocupar com as consequências. Com isso, o médico avisa: Leonor poderá morrer se tiver outros filhos.

Essa notícia atinge Afrânio em cheio. Ele, o filho renegado, abre mão da própria vida para seguir a saga do pai e agora, pelas mãos da mãe, Encarnação, a linhagem dos Sá Ribeiro terá um fim. Seu casamento nunca mais será o mesmo, mas Leonor não desiste. Ela terá um filho varão.

Apesar das agruras do parto, Maria Tereza cresce saudável e livre, pela fazenda, andando a cavalo, na companhia de Cícero (Lucca Fontoura/ Pablo Morais), filho dos empregados do coronel, Doninha (Barbara Reis/ Suely Bispo) e Clemente (Julio Machado). O menino, ao longo dos anos, acaba nutrindo muito mais que uma amizade pela filha dos patrões. Esse é seu erro.

Leonor engravida, mesmo contra as orientações médicas. Martim (Davi Caetano/ Lee Taylor) nasce. E como previsto, sua mãe perde a vida realizando o desejo da família Sá Ribeiro. O menino cresce rodeado de mimos, especialmente da avó, Encarnação, que enxerga nele o filho que perdeu.

A família Rosa

Capitão Ernesto Rosa (Rodrigo Lombardi) é um homem de conduta honrosa, justa e com ideais humanistas. Casado com Eulália (Fabíula Nascimento), o casal não tem filhos, mas adota Luzia (Carla Fabiana/ Larissa Góes/Lucy Alves) que fora abandonada em suas terras em meio à plantação de algodão.

Por várias vezes, os Sá Ribeiro tentaram comprar sua fazenda, mas ele nunca cedeu. Não só porque garante seu sustento, mas principalmente porque acredita que o povo de Grotas não pode ficar a mercê do poder de um coronel. Com a morte de Jacinto (Tarcísio Meira), ele vê espaço para não ser somente o opositor daquele modelo, mas também mostrar à população que é possível viver de uma outra forma, sem tanta submissão. Todos têm medo e respeito pelo coronel, o velho Jacinto, mas agora quem é esse jovem Saruê (Rodrigo Santoro)?

Os planos de Rosa foram tão audaciosos que Afrânio decidiu acabar com a produção de algodão do rival provocando um incêndio criminoso. Ele só não imaginou que a atitude renderia um efeito inesperado. Rosa usa o ato covarde para conquistar a confiança de outros produtores, o que desperta uma reação mais efetiva de Afrânio.

Mas o Capitão sabia que estava mexendo com uma família poderosa e que corria risco de vida. Certo dia, Rosa está no cais do porto, ansioso pelo embarque do algodão que negociou, e é assassinado. Neste mesmo momento, Afrânio sela a união com Leonor (Marina Nery) em uma pomposa cerimônia na igreja de Grotas, o que faz com que não seja suspeito do crime. 

 A briga ganha ainda mais força...

Os retirantes e seguidores de Rosa

Belmiro (Chico Diaz) é homem que não foge do trabalho e da luta. Consegue um pedaço de terra no sertão e faz dele seu oásis. De sol a sol, não esmorece um minuto. Carrega no rosto, no corpo e na alma, as marcas pela conquista daquele chão. Nem por isso escapa à seca. Vê seu gado morrer de fome, sua terra rachar-se e seu sustento sumir como o pó da caatinga.

A vida já era difícil quando Piedade (Cyria Coentro) carregava no ventre o fruto do amor com Belmiro: Santo (Rogerinho Costa/ Renato Góes/ Domingos Montagner). Às vésperas do nascimento do menino, Belmiro está no auge do desespero. Sua enxada cava a terra como se não houvesse limite, mas a esperança se acaba quando a poeira sobe do solo cada vez mais seca. Piedade implora para que o marido desista do que construíram porque teme pela vida do filho.

O sangue do parto misturado aquele pó é o único fluido que Belmiro vê germinar. No mais profundo e seco sertão, onde milhares morrem à espera de um tesouro, Piedade dá à luz um menino.

Por aquela vida Belmiro é capaz de largar qualquer coisa, mesmo que custe sua própria sobrevivência. Até o último segundo, ele trabalha pelo seu pedaço de terra, mas é vencido pela escassez: de água, de comida, de gado, de vida. Parte amargurado com a mulher e o filho. No caminho, troca o que tem, qualquer resquício do que um dia fora pra ele muito importante, por alimento. Suporta a sede, a dor, a fome e a tristeza por quilômetros e quilômetros. O leite de Piedade, que alimenta seu filho, é escasso. Mas Santo é um verdadeiro guerreiro nordestino e, assim como seu povo, não vai morrer sem lutar.

Santo já está quase sem vida quando chega à igreja de Grotas. Padre Romão (Umberto Magnani) os recebe, assustado com aquele menino desfalecendo no colo da mãe. Batiza Santo, para que não morra pagão, e dá o que comer e beber para aquelas almas já sem viço.

É também o padre que assume a responsabilidade de dar àquela família uma nova chance. Então leva o casal junto com Santo até à fazenda de Grotas para tentar um emprego. Lá, Clemente (Júlio Machado) os recebe, e Belmiro jamais esquece o olhar do jagunço: “Tinha a morte nos olhos”. A visita ao coronel é em vão. Afrânio (Rodrigo Santoro/ Antonio Fagundes) não tem tempo para caridade. Já está muito ocupado assumindo o legado do pai.

Padre Romão não desiste. Segue para a fazenda Piatã. Lá, com Eulália (Fabíula Nascimento) e capitão Rosa (Rodrigo Lombardi), sela o destino daquele casal de retirantes e seu filho. A chegada de Piedade, aliás, não poderia ter acontecido em melhor momento. Eulália tentava, em vão, alimentar a pequena Luzia (Carla Fabiana/ Larissa Góes/ Lucy Alves) e a chegada de Piedade mata a fome da menina, com o mesmo leite que nutre Santo.

Assim, eles ficam na fazenda. Certo dia, Belmiro se prepara para seguir viagem em busca de trabalho e avista alguns homens ateando fogo no depósito de algodão. Ele consegue impedir que um desastre ainda maior aconteça e ganha a confiança de Rosa. Vira o braço direito do capitão e outro grande desafeto da família Sá Ribeiro.

O tempo passa, nasce Bento (Vitor Aleixo/ Dyio Coelho/ Irandhir Santos), irmão de Santo. Luzia, Bento e Santo crescem na fazenda Piatã como irmãos, apesar de Luzia alimentar um sentimento de mulher por Santo, e de Bento, por sua vez, enxergar Luzia com paixão.

Os frutos: Santo e Tereza

Ignorando a discórdia entre as duas famílias, o destino trata de aproximar seus frutos. Maria Tereza (Isabella Aguiar) conhece Santo (Rogerinho Costa) na infância, em dia de procissão. A cidade toda em festa, as ruas cheias de gente. Ela vestida de Nossa Senhora. Ele de São José. Nenhum dos dois confortáveis naqueles trajes. Ela estava ali por imposição da avó, Encarnação (Selma Egrei). E ele por ordem expressa da mãe, Piedade (Cyria Coentro).

Finalmente, diante de padre Romão (Umberto Magnani), as duas crianças se encontram e dá-se início ao evento, quando Afrânio (Rodrigo Santoro) aparece ensandecido gritando pela filha. Como assim Maria Tereza dividiria a procissão com o filho de um opositor?

Enquanto padre Romão tenta apartar a briga dos pais, Maria Tereza e Santo, já enfadados, se olham com a mesma ideia: fugir. Nesse momento de descuido, as crianças não pensam duas vezes: se entregam às águas do Velho Chico e recebem a sua benção.

Dois jovens que se apaixonam ignorando os sentimentos de vingança que atravessam as histórias de suas famílias. Mas Maria Tereza e Santo não escapam do ciúme. 

Cícero (Pablo Morais) logo percebe que Maria Tereza está diferente. Passa a sair sem dizer para onde vai e volta com sorriso nos lábios. A desconfiança toma forma quando Cícero flagra o casal numa cachoeira perto da fazenda Piatã. Ali, o ódio se torna maior que qualquer sentimento. A amizade que unia Cícero e Maria Tereza deixa de existir.

Maria Tereza não tinha ideia da paixão doentia de Cícero, assim como Santo não desconfiava que Luzia (Larissa Góes) fosse capaz de qualquer coisa para ficar com ele. Nem passava pela sua cabeça que a menina que ele tinha como irmã fosse apaixonada por ele.

Cícero se vinga. Ele deixa escapar que Maria Tereza estava se encontrando com Santo. A revelação desperta a ira de Afrânio e o coronel perde a cabeça. Tranca a filha no quarto, onde ela fica por dias, se recusando a comer.

Do outro lado, Santo decide se casar com a filha do coronel. Conta a verdade para a mãe e quer a benção do pai. Não é fácil para Belmiro (Chico Diaz) aceitar o romance do filho justo com uma mulher da família que ele tanto despreza, especialmente depois da morte do Capitão Rosa (Rodrigo Lombardi). É Eulália (Fabiula Nascimento) quem consegue semear um pouco de paz em meio a tanta discórdia. “Esse ódio é coisa nossa, Miro, não deles dois!”, diz ela numa conversa. A coragem do filho dobra Belmiro. Se a discórdia precisa de um motivo para acabar, Belmiro não conhecia nenhum mais justo que o amor.

O pedido de casamento não chega a acontecer. Santo mal tem tempo de falar e é expulso da fazenda.  Afrânio exige que Belmiro, Santo e Bento (Vitor Aleixo/ Diyo Coelho/Irandhir Santos) deixem o local. Cícero (Pablo Morais), no entanto, não se conforma. Queria matar o maldito que roubou o coração de Tereza ali mesmo. “Deixa a poeira baixar”, pede o coronel.  Ele não consegue acatar a ordem de Afrânio e vai atrás dos três, armando uma tocaia. O ódio corre nas veias! Quando Belmiro passa com os filhos, Cícero tem Santo na mira. O tiro é certeiro, mas o atingido é Belmiro. Ele se joga na frente de Santo e salva a vida do filho.

A tragédia com Belmiro atiça a rixa entre as duas famílias. Bento não se conforma com a morte do pai e jura que se vingará. O sofrimento é tanto, que de forma velada, Bento culpa o irmão. Agora, o ódio também toma conta de seu coração.

O assassinato deixa o povo da cidade em polvorosa. Belmiro era muito querido por todos. O delegado, que sabia não poder fazer muito pelo retirante morto, aconselha Afrânio a sair de Grotas. Nem que seja por um tempo. O coronel acaba cedendo e leva os filhos e a mãe, Encarnação, para uma temporada no solar dos Sá Ribeiro, em Salvador.

Lá, coloca Maria Tereza em um internato. “Você pode até não acreditar, Tereza, mas estou fazendo isso pro seu próprio bem... E um dia você ainda vai me agradecer por isso”, diz o coronel. A filha, claro, não consegue perdoá-lo. Não naquele momento.

Mesmo isolada de todos, Maria Tereza ainda nutre esperança de rever Santo. O amor tão sincero e genuíno é descrito e declamado em cartas. Mensagens que ela não tem ideia de como fazer chegar até o amado. É quando uma nova amiga, Martha (Adriana Gabriela), surge garantindo que as cartas podem chegar à fazenda Piatã.

As declarações de amor chegam à cidade, mas Luzia consegue interceptá-las. Afinal, com Maria Tereza longe, Luzia acredita ter alguma chance com o filho de Belmiro. Nem mesmo a última carta, quando Maria Tereza conta que espera um filho de Santo, chega às mãos dele. Sem respostas, nem mesmo a esperança resiste.

Outra tragédia

A notícia da gravidez de Maria Tereza (Julia Dallavia) alimenta ainda mais o desejo de vingança de Afrânio (Rodrigo Santoro), que volta a Grotas disposto a matar Santo (Renato Góes). Mas ele não imagina que Bento (Diyo Coelho), filho de Belmiro (Chico Diaz), tivesse por ele o mesmo ódio que o coronel tem por Santo. Ele pretendia honrar a filha, quando é atingido por um tiro a caminho da fazenda Piatã. Só não morre porque o arrependimento de Bento é maior que seu anseio por uma retaliação.

Afrânio fica em coma e desperta uma culpa sem precedentes em Maria Tereza. Àquela altura, grávida, sozinha e sem nenhuma pista de Santo, ela entende que o ódio entre as famílias é maior que o amor dos dois.

No hospital, enquanto o pai está na UTI, Maria Tereza se depara com Iolanda (Carol Castro), que fica sabendo do acidente e vai atrás de notícias do coronel. É ela que consola Maria Tereza quando seu remorso é maior que qualquer outro sentimento.

Enquanto Afrânio permanece internado, as duas conversam e Maria Tereza ouve histórias de um homem apaixonado, que em nada lembra seu pai. A empatia entre as duas é imediata. Quando se dá conta, ela já está contando seus segredos e a saga de seu amor interrompido, que culmina no tiro que quase mata Afrânio.

Iolanda e Afrânio – o reencontro

Afrânio (Rodrigo Santoro) nunca esqueceu Iolanda (Carol Castro). No período em que Maria Tereza (Julia Dallavia) fica no internato, Afrânio procura por Iolanda em uma casa de shows, mas não tem coragem de ir adiante. O reencontro de fato só acontece quando Afrânio está no hospital, em coma. Diante do corpo inerte, as mulheres da vida dele, Iolanda e Maria Tereza, suplicam para que não desista de viver: “Você tem uma filha linda, que te ama muito...E uma mulher que te ama...Que ainda não cansou de te esperar!”, sussurra Iolanda. Afrânio desperta e chama Iolanda pelo nome. Desta vez, nem mesmo a fúria de Encarnação (Selma Egrei) será capaz de separá-los.

Segunda fase – Mais de vinte anos depois

Maria Tereza (Camila Pitanga) não volta a procurar Santo (Domingos Montagner) depois da tragédia com o pai. Já está conformada com seu destino. Uma troca de favores define o futuro da mulher natureza. Carlos Eduardo (Rafael Vitti/ Marcelo Serrado) vai com o pai até a casa do coronel para uma conversa. Ele deseja que o filho siga a carreira política. Em troca de um cargo em Brasília, Afrânio sugere que Carlos Eduardo se case com Maria Tereza e assuma Miguel (Gabriel Leone) como filho.

Para todos, Miguel é filho de Maria Tereza e Carlos Eduardo (Marcelo Serrado). O segredo é guardado com cautela por Iolanda (Christiane Torloni), Afrânio (Antonio Fagundes), Maria Tereza e o marido. Miguel não tem ideia que seu pai biológico é Santo (Domingos Montagner). Santo também não sabe que tem um filho com Maria Tereza. As cartas interceptadas por Luzia (Lucy Alves) o impediram de viver essa paternidade e o amor proibido. Com o caminho livre, a filha de criação de Eulália (Fabíula Nascimento) acaba conquistando o que queria: casa-se com Santo. Mas não conquista seu coração por inteiro. Ainda assim, dessa união nascem Olívia (Giulia Buscaio) e Isabel (Ana Raysa).

Eles ainda moram em Grotas e a fazenda, que era só de algodão, agora cultiva frutas. Seguindo os ideais humanistas de capitão Rosa (Rodrigo Lombardi), Santo funda uma cooperativa e luta pelos interesses dos pequenos produtores.

Maria Tereza e Carlos Eduardo mantêm um casamento de aparência, afinal, ela nunca deixou de amar Santo. Em Salvador, ela comanda a empresa de exportação do pai, que continua morando na fazenda com Iolanda. Carlos Eduardo segue carreira política em Brasília e está sempre metido em acordos que beneficiam o sogro.

 Miguel herda do pai biológico a paixão pela terra. Embora tenha crescido longe da fazenda, foi estudar agronomia fora do país e volta com o intuito de colocar em prática sua tese de doutorado. Cada vez que fala com o filho, Maria Tereza se lembra de Santo e de como os dois são parecidos. Nem o tempo nem a distância são capazes de anular esse amor.

O fruto desse amor: Miguel

Miguel (Gabriel Leone) está de volta ao Brasil e Maria Tereza (Camila Pitanga) sente-se dividida. Sonhou com aquele momento, mas agora volta a se angustiar com a possibilidade da verdade sobre a paternidade de seu filho ser revelada.

Alheio ao turbilhão de emoções que toma conta da mãe, Miguel não vê a hora de chegar à fazenda de Grotas. Ele quer propor ao avô colocar em prática, em suas terras, sua tese de doutorado: agronegócio sustentável e a convivência com o semiárido. Mal sabe ele que Saruê (Antonio Fagundes) não quer conversar sobre nada que não lhe traga lucro rápido.

Maria Tereza vai adiar esse reencontro o quanto puder, ainda mais depois de saber que Encarnação (Selma Egrei) anda falando demais. Em uma das conversas com Iolanda (Christiane Torloni), ela admite: “Eu sei de tudo...sempre soube”. Será?

Bento, Beatriz e Martim

Beatriz (Dira Paes) dá aulas na escola rural de Grotas para os remanescentes de uma tribo indígena. Acredita que com muito trabalho e gente honesta é possível ter um futuro diferente para o país. Não pensa duas vezes em questionar o prefeito de Grotas sobre seus projetos de fachada para a cidade, mas que nunca visam a melhoria de vida da população.

Bento (Irandhir Santos) conhece a professora em um desses embates políticos, na inauguração da prefeitura, e ela o confunde com “mais um enganador”. Mas Bento não vai desistir enquanto não provar o contrário. Ele ingressou na carreira política, se tornou vereador, e luta em defesa das causas que acredita. É um dos grandes desafetos da prefeitura atual. Disposto a mudar a situação das crianças da zona rural, que sofrem com a falta de condições adequadas de ensino, Bento procura Beatriz na escola Gameleira, onde ela dá aulas. Ressabiada, a professora não acredita nas boas intenções de Bento, mas logo descobre que seus interesses são genuínos.

Martim (Lee Taylor) surge na vida de Beatriz mais pra frente, quando volta para Grotas. Ninguém sabe muito de seu paradeiro antes disso. Na infância, foi mimado pela avó, Encarnação (Selma Egrei), que viu nele o filho que perdeu. Depois que se forma em jornalismo, sai de casa e ganha o mundo. Passa anos viajando para fotografar santuários ecológicos. Martim não tem lugar fixo, é bicho que precisa voar. Mas, enquanto permanece em sua cidade natal, acaba se aliando ao sobrinho, Miguel (Gabriel Leone), para a implantação do projeto que ele sonha em colocar em prática.

Em Beatriz, Martim desperta uma paixão daquelas de tirar o fôlego, justamente quando ela está engatando um romance com Bento. A professora acaba dividida entre esse homem sem amarras e Bento, com quem compartilha os mesmos ideais.

A Produção

O galpão e o início do projeto

Para começar o projeto de ‘Velho Chico’, Luiz Fernando Carvalho reuniu equipe e elenco no galpão, instalado desde 2013, no Projac. Lá o diretor desenvolve processos criativos, de formação, elaborando uma espécie de incubadora para gerir ideias e talentos. Em um mesmo local, sem divisão de paredes, figurino, arte, cenografia e atores são orientados por Luiz Fernando. Por se tratar de um processo colaborativo, todos atuam como criadores. Para ‘Velho Chico’, o processo começou em outubro.

Durante uma semana, a equipe participou de cinco palestras, ministradas por estudiosos em diversas áreas, além de atividades de integração e discussões. Entre os assuntos abordados estavam o Rio São Francisco, a Tropicália, os anos 1960 na Bahia, entre outros. “Meu trabalho é fruto de necessidades. A necessidade de criar é a substância capaz de fundar uma nova linguagem. Sou alguém que acredita no processo  criativo, independentemente do número de capítulos, gênero, etc... E dentro desta necessidade está a busca por não me repetir, de seguir me perguntando coisas”, declara o diretor.

 A preparação de elenco

Antes, durante e até o final do projeto, como é comum no método de trabalho do diretor, há também uma intensa preparação só para o elenco. São processos de criações coletivas. "Segundo orientação do diretor Luiz Fernando Carvalho, todos os ensaios são pensados para potencializar esta ideia, fugindo de um padrão pré-estabelecido, investindo na criação imaginativa dos intérpretes”, explica Antonio Karnewalle, diretor que trabalha com Luiz Fernando Carvalho há sete anos.

No primeiro momento com o elenco há a preparação de corpo para disponibilizar o encontro com esse novo personagem. “É quando acontece a primeira sensibilização coletiva, um conhecimento mútuo dos atores. É como se os atores se transformassem em uma página em branco. Se lançar no desconhecido é muito importante”, explica Karnewalle.

Quando os atores já estão despidos para um novo papel, começa o trabalho de construção de personagem. O galpão de ensaios fica aberto a todos os atores durante todo o período da novela. No momento de gravação, o processo continua. O objetivo é que o ator tenha o preparo necessário para reagir ao imprevisto de cada cena.

Além das aulas de corpo, voz e dinâmicas com máscaras, Luiz Fernando trabalha com percussão como estímulos sonoros para os ensaios em ‘Velho Chico’. Para tanto, convidou o percussionista carioca Tadeu Campany, que viaja o Brasil pesquisando a percussão popular no Brasil. "A função maior de um diretor é produzir um acontecimento diante da câmera. É dar uma resposta ao texto. É um ato emocional, estético”, pontua Luiz Fernando Carvalho.

Percussão no trabalho de preparação

A atuação de Tadeu Campany foi uma criação nova para esta novela. “Ele fez um trabalho de colaboração da percussão com os ritmos, timbres, deslocando os atores para as referências do Nordeste. Tadeu contribui com seus instrumentos e sua música para contextualizar e ampliar o universo sensorial sertanejo dentro da sala de ensaio”, define Luiz Fernando Carvalho.

O trabalho que começou no galpão se estende até o set de gravação. No galpão, o som era feito a partir da improvisação dos atores. Os elementos do local serviam para fazer os ritmos e efeitos. No set, a ideia é que os atores resgatem e amplifiquem aquela experiência sensorial em contato com o real. Para isso, Tadeu promove a emoção sonora necessária pra cena. “Li a sinopse e montei uma espécie de kit sonoro pra cada personagem”. Em uma cena de emoção do personagem de Afrânio (Rodrigo Santoro), Tadeu utilizou, por exemplo, efeitos de água e tampinha de garrafa Pet.

O músico faz esse trabalho de percussão há 15 anos e trouxe texturas de vários lugares do país: Clave de Cuba; Sementes, cada uma de um lugar; Alfaia de Pernambuco; Zabumba do Nordeste, consagrada por Luiz Gonzaga; Pau de chuva, indígena; Gonguê de Pernambuco e Guizos.

O Nordeste

Assim como o texto dos autores da novela traz o resgate de nossa memória cultural, afetiva e histórica, a produção de ‘Velho Chico’ caminha na mesma direção. Esta é uma característica da dramaturgia de Benedito Ruy Barbosa e da direção de Luiz Fernando Carvalho. O reencontro com o país permeou o trabalho de pesquisa, a preparação da equipe e do elenco, o figurino, a cenografia e as gravações.

O povo ribeirinho não ficou só na ficção. Estão nas cenas, no trabalho diário da equipe, na produção e finalização das peças dos artistas plásticos que trabalham na novela. São pescadores, artesãos, atores, serralheiros, produtores, lavadeiras... São nordestinos de vários estados brasileiros. As histórias reais e de esperança desse povo se misturaram às dos personagens. “A novela é como uma ocupação do país, com questões que foram tão abandonadas", analisa Luiz Fernando Carvalho. 

Além deste resgate, o trabalho artesanal também guia todo o projeto e todos os departamentos de produção de ‘Velho Chico’. A figurinista cria peça por peça, e elas passam, uma a uma, por diversas etapas - de tingimento a envelhecimento manual - até ficarem prontas.

A cenografia segue a mesma linha. A ideia é conservar e restaurar a memória das edificações e não fazer apenas interferências cenográficas nos locais e locações por onde a novela vem sendo gravada no Nordeste. Para tanto, a equipe também contou com mão de obra local, o que corroborou para um olhar ainda mais regional e único. 

As primeiras gravações da novela começaram nos primeiros dias de janeiro, pelo Nordeste do país, e duraram quase dois meses direto, em três frentes de gravação simultânea. Os diretores Luiz Fernando Carvalho, Carlos Araújo, Gustavo Fernandez e Philippe Barcinski se dividiam entre as cidades para dirigirem as cenas. Dez caminhões saíram do Rio de Janeiro rumo a Alagoas, Rio Grande do Norte e Bahia. Só de figurino foram três toneladas divididas em três caminhões. Uma outra parte foi despachada por avião. Entre os itens estavam: vestuário, acessórios, máquina de costura e até equipamento para tingimento.

A equipe, com 120 pessoas, gravou em diversas cidades no interior do nordeste. Foram cerca de 500 cenas. Entre as locações escolhidas estão: São Francisco do Conde, Raso da Catarina e Cachoeira, na Bahia; Baraúna, no Rio Grande do Norte; Povoado Caboclo e Olho D´água do Casado, em Alagoas.

A gravação da novela movimentou a cadeia de produção das cidades por onde passou. Em São Francisco do Conde (BA), por exemplo, a produção contratou todo tipo de mão de obra local, incluindo serralheiros, pescadores, barqueiros, entre outros. Isso sem contar com os profissionais de produção, técnica, atores, participações e figuração. Só para selecionar as participações especiais dos capítulos iniciais de ‘Velho Chico’ foram realizados mais de 400 testes nas locações nordestinas, totalizando a escalação de 70 atores. Cerca de 70% do elenco da novela também é do Nordeste. 

As gravações

A primeira parada da equipe no Nordeste foi em Olho D'Água do Casado, em Alagoas. Lá, um casebre simples foi palco para as primeiras cenas de ‘Velho Chico'. Cyria Coentro (Piedade) e Chico Diaz (Belmiro) deram o pontapé inicial para a trama que trata também de nossa brasilidade.

O sol quente do sertão pairava sobre a caatinga e promovia um espetáculo da natureza. Ao mesmo tempo, evidenciava ainda mais a seca que abate o povo daquela região. Das pessoas que colaboraram com o trabalho no local, dezenas eram da própria cidade. Traziam consigo as experiências de uma vida repleta de um valor nobre: a dignidade. Grandeza essa que era percebida diariamente na forma de trabalho e nas relações humanas que foram construídas ao longo da viagem.

Tudo colaborou para a construção das cenas e dos personagens. Desde uma conversa despretensiosa dos atores com moradores locais até a observação das inspiradoras paisagens no trajeto que atravessava os estados de Alagoas e Rio Grande do Norte. Os valores e as crenças da população nordestina eram um dos assuntos mais falados entre a equipe da novela ao longo da viagem. A forma como olhavam, tocavam e compartilhavam o pouco que tinham emocionava. Alguns moradores alugaram suas casas, que ficavam próximas às locações, para servirem de base para a equipe. Em dia de gravação, a família do dono da residência se reunia para observar os trabalhos e conhecer os seus ídolos que antes só eram possíveis de se ver através da televisão. A magia ali era real.

Os quartos da casa viravam camarins, a sala se transformava no ambiente da caracterização e até a própria cama ofereciam para quem quisesse descansar.

As locações mexiam com o imaginário das pessoas. Como as edificações foram recuperadas, traziam ali uma história pregressa. As paredes gastas, a tinta seca, os rastros das plantações inexistentes, tudo era sinal do tempo que passou e deixou marcas.

Em Baraúna, no Rio Grande do Norte, cidade vizinha a Mossoró, uma fazenda de plantação de algodão foi escolhida para as primeiras cenas de Rodrigo Santoro (Afrânio), Julio Machado (Clemente) e Rodrigo Lombardi (Capitão Rosa). Protagonistas dessa história, os atores foram dirigidos por Luiz Fernando Carvalho, que abriu as primeiras gravações nas cidades por onde a equipe passou. 

Rodrigo Santoro não conteve a emoção. "Luiz Fernando Carvalho leva você para lugares que nem imagina. A gente acha que já sabe como vai fazer a cena, mas quando estamos com ele no set, tudo é possível. Esse processo é incrível", disse o ator. A construção da cena no local da gravação é uma característica forte do diretor Luiz Fernando. Tudo pode mudar de acordo com os sinais da natureza e do momento. A cena que era para acontecer em um dia com sol pode ficar ainda mais especial com a chegada de uma chuva inesperada.

Às margens do Rio São Francisco, partindo da cidade de Piranhas, em Alagoas, foram gravadas cenas com Chico Diaz (Belmiro), Cyria Coentro (Piedade) e Rodrigo Lombardi (Capitão Rosa). O trajeto até a locação era realizado através de um catamarã que serviu de base para equipe e elenco. Ainda em Alagoas, uma experiência única também foi motivo de entusiasmo não só para a equipe presente, mas para a população local. Na região assolada pela seca, há anos, foi possível observar a transformação da paisagem após a chegada da chuva. O verde era como se fosse um milagre. E ficção confundia-se com a realidade. A seca contrastava com a vida.

Como um dos principais pólos culturais do Brasil, a Bahia também foi escolhida para ser palco desse enredo. Foi em São Francisco do Conde, Cachoeira e São Francisco do Paraguaçú que foram gravadas as principais cenas da primeira fase da trama. Grandes eventos, com uma superprodução tomou conta dos dias de gravação por lá.

Figurino

O figurino da próxima novela das nove, ‘Velho Chico’, foi criado respeitando um processo artesanal, em que as roupas passam por uma primeira etapa de descoloração do tecido e posterior tingimento para chegar na cor definitiva. A finalização é realizada com técnicas de envelhecimento natural: exposição ao sol, aplicação de cera, desgaste com lixas, pedras e a até própria terra do sertão foi usada, em alguns casos. “A gente trabalha nos detalhes. Eles fazem a diferença. É importante variar as técnicas para não ficar tudo igual. Diversidade é fundamental. No processo de envelhecimento, por exemplo, a gente vai tirando as cores do ombro, do cotovelo, para dar o ar de desgastado”, pontua Thanara Schonardie, figurista da novela.

No primeiro momento da novela, que começa no final da década de 1960 e se estende até os dias atuais, destacam-se os tons mais pastéis para o figurino dos personagens sertanejos, e tons mais saturados, mais “tropicália”, para os personagens que vivem na capital, Salvador.  “Comecei trabalhando Iolanda (Carol Castro), Leonor (Marina Nery) e Encarnação (Selma Egrei). No figurino de Leonor, estou usando muita flor e xita com estampa colorida. Os tecidos estampados vão sendo colocados em camadas e ganham volume. Já Iolanda representa a busca pela identidade brasileira, uma linguagem da tropicália, ela usa mais decotes e a roupa é mais estruturada no corpo”, ressalta Thanara.

Todo o cuidado em cada uma das peças não substitui, claro, a realidade. Por isso, Thanara e sua equipe foram em busca de moradores das regiões por onde a novela está sendo gravada para propor uma espécie de escambo. A ideia partiu do diretor Luiz Fernando Carvalho. Nas cidades do interior de Alagoas, Bahia e Rio Grande do Norte, a equipe realizou uma pesquisa e identificou possíveis peças para compor o figurino dos personagens. A partir disso, trocavam com o morador local uma roupa nova por uma já usada, e compravam algumas peças também. “Conseguimos, por exemplo, uma bota de um senhor que caminhava pela estrada. E demos outro sapato novo para ele”, explica Thanara. 

Os processos de envelhecimento e vivência foram realizados com os acessórios de todos os personagens também. Até agora, a equipe já trabalhou em mais de 700 acessórios, incluindo chapéus e botas. “Para os chapéus, deixamos expostos ao sol para que assumissem um aspecto de queimado, cores distintas e usamos outras técnicas de envelhecimento. E não é só envelhecer, tem a marca do tempo, do dia a dia. Os chapéus vieram do processo de envelhecimento e tínhamos que dar formas da cabeça. Cada personagem usa de um jeito. Tem a marca da mão, de acordo com a forma como ajeita o chapéu na cabeça”, detalha a figurinista.

Caracterização 

A maquiagem para os personagens de ‘Velho Chico’ é mínima, seguindo o conceito de realismo do diretor Luiz Fernando Carvalho. Mais do que base, blush ou sombras, Rubens Liborio, o caracterizador da novela, usa matéria-prima do próprio sertão.

“Tenho terra de Delmiro Gouveia, Salvador e Mossoró e vou usá-las em diferentes situações para a maquiagem. Isso ajuda a dar a vivência de cada personagem. A maquiagem é bem realista, do sertão mesmo”, explica Rubens, que já trabalha há 15 anos com Luiz Fernando Carvalho. A mudança no visual dos atores se adequou apenas às necessidades da história. A personagem de Cyria Coentro, Piedade, estará em algumas épocas da primeira fase da novela. Portanto, Rubens teve a preocupação de rejuvenescer a atriz nas primeiras cenas. O mesmo aconteceu com a atriz Selma Egrei, que participa das duas fases, “Mas tudo de forma muito natural. A ideia é que ela tenha um envelhecimento progressivo, como na história”, descreve Rubens.

Cenografia

O conceito da cenografia de ‘Velho Chico’ está no encontro da história dos lugares, de pessoas, do nosso país. Para cada locação no interior do Nordeste, havia uma equipe de cenografia a postos. A ideia é conservar e restaurar interferindo o mínimo possível. “Toda a arquitetura está sendo resgatada, preservando a essência de cada espaço utilizado”, exemplifica Danielly Ramos, que assina a cenografia com Keller Veiga.

Para conseguir produzir todas as locações, a equipe contou com mão de obra local no Nordeste, o que corroborou para um olhar ainda mais regional e próximo ao que o texto e a história se propõem contar. A assistente de cenografia Mariana Villas Boas, que ficou responsável pelo processo de restauração do casarão que, na trama, será a fazenda Piatã, de capitão Rosa (Rodrigo Lombardi), explica que a seleção dos profissionais para a construção deste cenário foi feita na própria cidade onde a novela realiza as gravações. “Em um mês a obra foi finalizada. Descobri uma foto antiga da casa que havia por lá e tentamos resgatar aquela memória. Vimos que tinha até uma plantação de milho. Por isso, plantamos Palmas no local”, conta.

A consciência de reaproveitamento, tão presente em todo o projeto de ‘Velho Chico’, norteou também a construção da cidade cenográfica da novela. Grande parte do material utilizado veio de outros cenários já existentes no Projac. “Aproveitamos azulejos, portas, janelas e até fios e cimento. Foi um trabalho de restauro do que viveu”, acredita Danielly.

Com 10.000m² e construída em forma de arena (com 360º), a cidade cenográfica tem 73 construções, todas com micro interiores e espaços multiuso. Os 12 ambientes principais desta cidade fictícia têm total acabamento interno, com móveis e adornos produzidos pela equipe de produção de arte. “Trouxemos, por exemplo, parte do nosso paisagismo e pau do mato - para telhados e cercas - do Nordeste. Isso enriqueceu muito o resultado”, exemplifica Danielly. As referências das casas construídas na cidade cenográfica foram inspiradas nos pintores da década de 1940 e 1950, como Portinari, Di Cavalcanti, Carybé, Volpi e nas fotografias de Maureen Bisilliat.

No estúdio, há um cenário que ficará fixo - uma parte da casa do coronel Afrânio (Rodrigo Santoro/ Antônio Fagundes). “Teremos alguns cômodos da fazenda de Grotas: o escritório, a cozinha, a capela, a sala de estar principal e a sala de jantar”, descreve Keller Veiga. Um outro grande ambiente, o da fazenda Piatã, foi construído em um anexo da cidade cenográfica. O que foi utilizado de cenografia nesta locação, em Alagoas, está sendo transportado para a cidade cenográfica, no Rio de Janeiro. “Como são duas fases é importante que a gente trabalhe com os mesmos materiais”, explica Danielly.

Artes Plásticas

A novela conta com cinco artistas plásticos principais: Raimundo Rodriguez, que atende aos itens Sacros; Anderson Dias, que cuida das embarcações e Marília Paiva, que é a responsável pela pintura-arte geral da novela, contando com o suporte de mais duas equipes, de Clécio Regis e Marcello Vilar.

Santos e oratórios

“Transformar o desprezo em objeto de desejo” é o lema de Raimundo Rodriguez, artista plástico que trabalha com Luiz Fernando Carvalho há mais de dez anos. Para criar os objetos que adornam a próxima novela das nove, os altares, oratórios, santos e estandartes, ele coleta material descartado. Utiliza metal, papelão, tubos de PVC, plástico, entre outros materiais. E tem um método bem peculiar de criação. Raimundo não planeja nada. O máximo que faz é um esboço. “Eu leio e interpreto o texto de uma forma artística. Procuro entender o perfil psicológico de cada personagem. Preciso contar uma história através de uma imagem”, exemplifica. “Trocamos impressões sensoriais sobre o resultado, o que deve passar aquela peça", ressalta o diretor Luiz Fernando Carvalho.

Até agora, para ‘Velho Chico’, Raimundo e sua equipe já produziram mais de 500 santos, dezenas de estandartes e diversos oratórios e altares. A maior criação do projeto até agora é um altar de oito metros de altura por seis metros de largura, que está instalado no convento de Santo Antônio, em Cachoeira, na Bahia, e deve ficar de presente para a cidade após o término das gravações. “Ele foi todo confeccionado com material reciclado. Tem a estrutura metálica, fôrma de pizza e sobra dos elementos das cidades cenográficas”, adianta.

Durante o mês de janeiro, Raimundo esteve em Alagoas e na Bahia para a confecção dos oratórios. O oratório dos personagens de Belmiro (Chico Diaz) e Piedade (Cyria Coentro), por exemplo, ganharam peças encontradas por Raimundo na caatinga. “Ele foi feito de papelão, que eu achei lá na locação, e coloquei os santinhos. Depois encontrei latinhas de sardinha que me serviram como castiçal.”

As embarcações

Anderson Dias é o artista plástico responsável pelas carrancas e embarcações de ‘Velho Chico’. Trabalha com Luiz Fernando desde 2013. A pesquisa para o projeto começou em Outubro, com uma ida ao centro de estudo sobre o Rio São Francisco em Belo Horizonte. “Tive um longo papo com Zanoni Neves, especialista sobre os modos de vida às margens do Rio São Francisco. Lá ainda vi maquetes de embarcações entre outros artefatos que fizeram parte do cotidiano ribeirinho no ultimo século”, conta.

Depois do estudo inicial, o diretor propôs que Anderson procurasse artistas populares ou mestres “carranqueiros” a fim de orientá-los a produzir peças originais. “Com as referências que pude observar na exposição Viagem das Carrancas na Pinacoteca de São Paulo, destaquei texturas, dimensões entre outros aspectos que foram fundamentais para a condução do trabalho”, descreve.

Para encontrar estes artistas, Anderson fez um roteiro às margens do Rio São Francisco. Foi assim que chegou ao centro de Artesãos de Petrolina. “Lá estabeleci uma parceria com os artesãos que se puseram a entalhar algumas carrancas. Produzimos sete carrancas para cinco barcas”, especifica. 

Para as gravações no Porto, Anderson produziu cerca de 70 embarcações, incluindo canoas e barcos de médio porte. O mesmo quantitativo foi produzido para cenas de uma procissão que envolveu boa parte do elenco às margens do Rio São Francisco. “Além disto, coordeno o restauro de uma canoa chata e uma canoa de tolda, que é uma embarcação característica do Rio São Francisco. Restaurá-la foi prazeroso, pois só existem três destas no Brasil. Ser responsável pelo retorno deste exemplar ao rio é motivo de orgulho”, finaliza.

Produção de arte

Não basta uma tentativa de aproximação do real. Para conseguir fidelidade e realidade, é preciso resgate. E é nisso que a equipe liderada pelo diretor Luiz Fernando Carvalho acredita. Os ambientes de ‘Velho Chico’ possuem a vivência de cada personagem e também do local onde a trama é retratada, o Nordeste do país.

Para montar uma fazenda no meio do sertão do país, foram levadas 150 toneladas de material de arte em 14 caminhões. "Fizemos uma vasta pesquisa e o Luiz Fernando Carvalho foi desenhando o caminho que deveríamos seguir. Construímos um cenário praticamente do zero. Por isso a necessidade de tantos objetos”, pontua Mirian Mendes, produtora de arte da novela.

A proximidade com a realidade leva em consideração os cheiros de cada ambiente. Em quatro interiores temáticos, a preocupação da equipe foi compor essências diferentes que caracterizassem cada local.  “Ao chegar na lavanderia sente-se o cheiro de naftalina. Já nos quartos temos cânfora para deixar os cobertores com um cheiro mais doce. Na pescaria, que fica ao lado, tem cheiro de peixe e água salgada. A pessoa entra e não precisa dizer o que está ali, já sabe-se pelo cheiro”, descreve.

Mirian destaca ainda as sombras e as texturas que são fundamentais nos cenários. “Em vez de colocar um determinando objeto, projetamos o elemento para que a sombra seja mais evidente. Por exemplo, às vezes, você não vê a flor, mas vê a sombra dela na parede", cita. Assim como aconteceu no figurino e na cenografia, o apoio da população local durante as gravações foi essencial.

O local onde vivem Eulália (Fabíula Nascimento) e Ernesto Rosa (Rodrigo Lombardi), a fazenda Piatã, tem características do capitão proletário, uma pessoa humanista. "Na casa dele só tem as coisas utilitárias, mas é tudo com muito capricho. Eulália é uma pessoa muito prendada, cuidadosa, borda bem", destaca Mirian.

Já na fazenda de Grotas, onde vive a família do coronel Saruê (Tarcísio Meira) e Encarnação (Selma Egrei), prevalece um modelo completamente diferente. Os Sá Ribeiro precisam sempre aparentar riqueza. "Você vê a casa em ruínas e tudo está maquiado para ser exibido. A família dos Sá Ribeiro é ostentação", ressalta ela.

Uma das grandes diferenças entre Grotas e Piatã é que uma vai parar um pouco no tempo. Grotas vai apresentar uma decadência quando chega a praga do bicudo no algodão e Piatã começa a diversificar. O coronel Saruê representa o poder retrógrado, tradicionalista. “Com o tempo, Santo (Rogerinho Costa/ Renato Góes/ Domingos Montagner) assume o legado do capitão e a prosperidade na fazenda deles começa a se sobressair”, diz. A alma do sertão é representada no cenário de Belmiro (Chico Diaz) e Piedade (Cyria Coentro). O espaço deles é um prolongamento da história daquele casal.

Entrevista com Luiz Fernando Carvalho

Diretor de televisão e cinema, com formação em Letras e Arquitetura, Luiz Fernando Carvalho fundou uma linguagem própria. Na televisão, já realizou 26 trabalhos, entre novelas, especiais, minisséries e microsséries. Foi diretor-assistente das minisséries 'O Tempo e O Vento', 'Grande Sertão: Veredas' e 'Riacho Doce'. Dirigiu também grandes sucessos da TV brasileira como as novelas Renascer', 'O Rei do Gado' e 'Esperança', e seu último trabalho em novelas foi 'Meu Pedacinho de Chão', todos em parceria com o autor Benedito Ruy Barbosa. Em 2005, criou, escreveu e dirigiu as duas jornadas da microssérie 'Hoje É Dia de Maria'. Inspirada nos contos retirados da oralidade popular brasileira. A série recebeu vários prêmios internacionais, sendo inclusive finalista do International Emmy Awards em duas categoriais. Após ter adaptado diversas obras literárias para a TV, como A Pedra do Reino', de Ariano Suassuna, e 'Capitu', uma livre transposição do romance de Machado de Assis, Luiz Fernando Carvalho também dirigiu 'Alexandre e outros Heróis', adaptação de contos infanto-juvenis de Graciliano Ramos, e idealizou e dirigiu a série, em oito episódios, de 'Correio Feminino', inspirada nas colunas femininas que Clarice Lispector escreveu para jornais cariocas. Seu longa-metragem de estreia, 'Lavoura Arcaica', recebeu mais de cinquenta prêmios nacionais e internacionais.

Sua metodologia de trabalho coloca toda a equipe de criação em um processo de autoconhecimento para reafirmar e recriar o texto. Quais foram as principais ideias para 'Velho Chico' e como elas surgiram?

Luiz Fernando Carvalho: Para um processo de treinamento acontecer é preciso desenvolver técnicas, assimilar e trocar conhecimentos, além de montar um grupo de colaboradores capaz de refletir e desenvolver um processo criativo. Sou um criador que necessita de seu espaço de criação exercido de forma colaborativa. Esta é a real motivação que condicionou minha atividade de diretor ao galpão, onde meu cotidiano de criador busca novos processos e modelos não apenas artísticos, mas, inclusive, de produção, identificando novos talentos em todas as áreas. O texto é um ponto de partida que precisa ser vasculhado e não simplesmente decorado. Nós reagimos a ele, e este processo de escavação não deve ser realizado apenas por mim, e sim pelo grupo todo: atores, cenógrafos, figurinistas, fotógrafos, costureiras, contrarregras, todos, sem exceção. Aprendemos muito todos os dias. Não há ninguém ali que não tenha algo a oferecer ao outro, e, consequentemente, meu olhar se alimenta deste fluxo de encontros. Não saberia mais dirigir de forma convencional.

Como foi (e continua sendo) o processo de preparação do elenco para o início das gravações?

Luiz Fernando Carvalho: Desenvolvemos um trabalho de percepção e de sensibilidade voltado para a leitura e improvisação do texto sob um ponto de vista mais atemporal e arquetípico. Utilizo máscaras de comédia del'arte, sem a intenção de aplicar completamente tal vocabulário, meu interesse é alçar os intérpretes a acessarem o campo dos arquétipos. Dia a dia os intérpretes vão passando para o lado do sonho, da imaginação, abandonando pequenas vaidades e medos desnecessários. Também trabalho com máscaras feitas no próprio galpão ou mesmo máscaras balinesas, elas são elementos que aceleram o deslocamento dos intérpretes em direção aos personagens. Todas estas técnicas são ministradas por um grupo de preparadores que segue comigo desde o princípio: Tiche Vianna, Lucia Cordeiro, Antônio Karnewale, Agnes Moço. Sem eles não faria nada. Na preparação de Velho Chico percebemos que já somos um só ser. Isso me tocou muito.

Você poderia falar um pouco sobre a estética deste projeto e o que você persegue nesse sentido?

Luiz Fernando Carvalho: “A estética que me interessa é a estética do coração”. Esta frase é do grande escritor Machado de Assis, mas tomo-a para mim na tentativa de explicar um país extremamente passional. Nossas narrativas mais populares serão sempre voltadas a esta ligação arquetípica que o brasileiro tem com suas raízes mais primitivas. Fazendo este percurso, constatamos que, apesar de todos os avanços acorridos nos últimos séculos, ainda somos um imenso quintal. Não há família brasileira que não traga consigo a memória emotiva de uma horta, lençóis estendidos em varais, passarinh

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Divulgação/RPC
Divulgação/RPC

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