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De esperança em esperança. Foi com esse lema que senadores e participantes lembraram o centenário de nascimento de dom Paulo Evaristo Arns, em sessão de homenagem no Senado, ontem, 13.  Eles destacaram a luta incansável do arcebispo de São Paulo pela redemocratização do país e sua dedicação aos mais vulneráveis como inspiração para se buscar um país mais unido e igualitário. Nascido em Forquilhinha, em Santa Catarina, o religioso, que faleceu em 2016, completaria 100 anos no dia 14 de setembro.

Requerente da sessão, senador Flávio Arns (Podemos-PR), sobrinho do homenageado, afirmou que dom Paulo foi um “agente da vida” ao trilhar sua caminhada a favor do ser humano, da cidadania e, principalmente, em defesa da democracia.

— A lembrança de dom Paulo, neste momento crucial da vida da nação e do seu povo, deve servir, tem que servir de inspiração para a descoberta de caminhos de superação das injustiças, das divisões, das exclusões, dos radicalismos, dos preconceitos e das discriminações. Sem o acolhimento do grito dos excluídos, no sentido da superação das desigualdades, jamais superaremos no sentido de uma nação justa e acolhedora para todos os seus filhos e filhas.

Herzog

Vice-Presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) e filha do pastor presbiteriano Jaime Wright (1927-1999), Anita Sue Wright, resgatou a parceria de seu pai com dom Paulo na década de 70, em defesa dos direitos humanos, durante a regime militar. Ela destacou a realização, em 1975, do culto ecumênico em memória do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura. Arns, Wright e o rabino Henry Sobel (1944-2019) se uniram uma cerimônia na Praça da Sé, em São Paulo, para lembrar Herzog. O culto, que reuniu 8 mil pessoas, se transformou na maior manifestação pública de repúdio à ditadura militar.

— O pastor presbiteriano e o cardeal trabalhavam lado a lado, numa vivência ecumênica que exercitava a chamada Teologia das Brechas, aproveitando momentos oportunos para fazerem a diferença na vida das pessoas e da sociedade. E foi nesse espírito ecumênico que o reverendo Jaime e dom Paulo se uniram ao rabino Henry Sobel para a celebração ecumênica em memória do jornalista Vladimir Herzog, em 1975. A Catedral e a Praça da Sé estavam lotadas. O povo, cercado por policiais fortemente armados — lembrou Anita.

Brasil: Nunca Mais

Presidente da Comissão de Direitos Humanos (CDH), o senador Humberto Costa (PT-PE), lembrou que Dom Paulo coordenou também o projeto ‘Brasil: Nunca Mais’, que resultou num livro homônimo e é até hoje um dos mais importantes registros das violações de direitos humanos cometidas pelo governo militar. O projeto também teve a participação de Wright e Sobel.

— O Brasil: Nunca Mais, além de evitar que os processos judiciais por crimes políticos fossem destruídos com o fim da era militar, assim como ocorreu em outros períodos da história, é uma rica fonte de informações sobre os crimes legitimados pelo governo sangrento e possui grande importância acadêmica, notadamente na educação em direitos humanos — lembrou o senador.

Assim como os senadores Marcelo Castro (MDB-PI) e Izalci Lucas (PSDB-DF), que presidiu a sessão de homenagem, o senador Antonio Anastasia (PSD-MG) afirmou que os ensinamentos de dom Paulo Evaristo Arns devem ser resgatados para inspirar lideranças e a população em geral na busca da unificação do país.

— O momento do Brasil é um momento de pacificação. Nós precisamos nos inspirar nesses exemplos, como foi de Dom Paulo, exatamente com o objetivo de superarmos esses conflitos, essas contradições, esse momento de acirramento, infelizmente agora ainda mais agravados por essa terrível pandemia. Se Dom Paulo estivesse entre nós, tenho, sim, certeza: teria sempre uma palavra de equilíbrio, uma palavra de concórdia, uma palavra de pacificação e de fraternidade para superarmos esses momentos e, ao mesmo tempo, de consolo e acolhimento para aqueles que estão doentes.

Pastorais

O trabalho de dom Paulo Evaristo Arns ao lado da irmã, a médica Zilda Arns (1934-2010), também foi lembrado pelos participantes. O ex-senador Pedro Simon, também amigo do arcebispo, destacou sua dedicação humanitária quando apoiou a criação das Pastorais da Criança, da Pessoa Idosa, do Povo da Rua, Operária e de DST/Aids na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

— Sua figura e a figura de dona Zilda representam, não tenho nenhuma dúvida, aquilo por que o Brasil mais lutou, aquilo que o Brasil mais desempenhou, mais desenvolveu na busca do seu futuro — disse Simon.

Para o padre Júlio Lancellotti, pároco na Paróquia São Miguel Arcanjo, em São Paulo, essa dedicação serve como “alimento” para que a luta pela dignidade humana e igualdade de direitos seja ampliada.

— Lembrar o centenário é compromisso, não é simplesmente fazer uma celebração, uma memória, mas é um compromisso de continuarmos a luta por essas esperanças, a luta pelos direitos humanos, a luta pela dignidade da vida, a luta pelos pobres, pelos esquecidos, pelos abandonados, uma luta de compromisso e transformação. Este momento que cabe a nós viver é um momento de alimentar a esperança sem criarmos conflitos, mas enfrentando os conflitos que são postos, os conflitos que estão presentes.

Periferias

Também nesse sentido se manifestaram o secretário geral da CNBB e bispo-auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião, Dom Joel Portella Amado e o Arcebispo Metropolitano de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer.

— Ele sonhava com as cidades sem ninguém abandonado nas periferias e pelas ruas e praças. Esperava que todos pudessem ter trabalho digno, moradia, educação e saúde. Esperava que o convívio urbano fosse sem violência e todos pudessem viver em paz e harmonia nessa casa comum. Pois bem, nos perguntamos hoje se as esperanças de Dom Paulo já foram realizadas ou continuam ainda em aberto. Lembrar o centenário de Dom Paulo é para todos nós, certamente, momento também de lembrar que as suas esperanças são as nossas esperanças e que a sua luta é também a nossa luta e a luta de toda a sociedade brasileira — reiterou Dom Odilo.

Ainda participaram da sessão especial o bispo-auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e Secretário-Geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB),  Joel Portella Amado; o ministro provincial na Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, frei Fidêncio Vanboemmel, e o Coordenador Nacional Adjunto e Coordenador Internacional da Pastoral da Criança, Nelson Arns Neumann.

Agência Senado

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