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Queria contar uma história, mas pensei no trabalho que daria, porque é preciso muita criatividade e inspiração para contá-la bem e, na prática, nunca fui uma boa contadora de histórias. No entanto, lembrei-me de um fato que aconteceu e vou contá-lo aqui em forma de história. Antes de iniciá-la, gostaria de levantar uma questão: você tem escutado a Deus?

Ela estava indo para a casa dela depois de um dia de trabalho. O caminho era o mesmo de sempre: mesmo horário e até os passos eram os mesmos; ela chegaria em casa na mesma hora. Exatamente tudo como sempre foi: já havia comprado o pão (o lanche do dia estava garantido), era só chegar em casa e preparar o café, até o cheirinho dele ela já sentia. “Tomar café da manhã é maravilhoso, mas no fim da tarde já começando a escurecer também é bom”, isso passava pela sua cabeça enquanto caminhava.

Tudo se faz diferente quando Deus está presente

Aquele dia, no entanto, seria diferente. Pela manhã, quando saiu de casa, uma sucessão de fatos foram chamando a sua atenção: o canto do pássaro que nunca havia reparado; o seu Luiz, homem bom e trabalhador que tinha seu comércio ali na rua, e lhe deu um bom-dia demorado, como se estivesse mais feliz do que o normal; o ônibus que veio quase vazio e deu até para sentar no caminho para a faculdade. E na calçada esburacada (que algumas vezes já lhe fez torcer o pé e foi causa de grande dor) havia nascido, despretensiosamente e contra todas as probabilidades, uma pequena flor que lhe serviu de “remédio” para superar a memória dolorida daquele lugar.

 “Que engraçado! O dia hoje parece estar sorrindo”, assim ela pensava.

Após relatar esses fatos a uma amiga da faculdade, que sentou ao seu lado no ônibus, ela perguntou: “Você já teve um dia assim?”.

A amiga respondeu-lhe: “Já sim! Quando os dias estão assim, tenho certeza absoluta de que é Deus querendo falar comigo“.

– “É mesmo? Como você tem tanta certeza?”.

A amiga continuou a responder: “Deus fala baixinho, Ele é muito discreto. E cada uma dessas coisas traz uma paz ao meu interior que quase sou capaz de ouvi-Lo dizer: ‘A Paz esteja contigo! Veja, filha, que dia lindo preparei para ti!’.”

Escutando Deus

Então, abriu-se nela um espaço que até aquele momento nunca havia percebido em si. Um “lugar de Deus”, chamemos assim. Um lugar dentro de si onde Deus habita, fala e age. Um lugar de silêncio também. Esse lugar, muitas vezes, assim como agora, tornava-se sensível a partir de fora. Sim, eram as situações externas que a faziam migrar para dentro desse lugar até então desconhecido. E aquele dia todo ela parecia estar voltada para dentro de si, mas era um dia como outro qualquer.

Nada de extraordinário havia acontecido. A não ser o fato de ela ver tudo diferente e, com o olhar mais atento, descobriu, naquele dia, que Deus falava com ela e estava totalmente decidida a ouvir cada sussurro.

Foi então que, já com as chaves na mão para abrir a porta de casa, ela foi abordada por dois rapazes com aspecto amedrontador, os olhos de ambos estavam como que dilatados, respiravam rápido como quem está com uma terrível pressa e uma intenção não muito sensata. Um deles, segurando no seu braço, disse-lhe:

-“Moça! Moça, passa a bolsa!”.

Ela não hesitou e, logo, entregou tudo o que tinha, inclusive o pão. Subindo os dois numa moto, jogaram na calçada o saco de pão e foram embora com sua bolsa e tudo o que nela havia.

Ele fala conosco

Na hora, ela sentiu um pavor tremendo, parecia que não seria capaz de sustentar-se sobre suas próprias pernas. Por uns instantes, esqueceu-se de tudo o que havia lhe acontecido naquele dia tão particular e só pensava em sua bolsa, nos pertences que nela estavam e no trabalho que daria recuperar todos os documentos que lhe foram roubados. Assim que começou a lamentar-se, lembrou-se do que a amiga lhe havia dito: “Quando os dias estão assim, tenho a certeza absoluta de que é Deus querendo falar comigo”.

Então, ela pensou: “Será que também nisso Deus está querendo falar comigo? Será que Deus fala até por meio de pessoas tão más? E de situações como essas?”. Em meio a tantas perguntas que lhe ocorriam, lembrou-se de um dia ter ouvido dona Lúcia, uma senhora de mais idade e muita sabedoria, que morava nas redondezas dizer: “Deus pode tirar um bem de um mal aparente, minha filha; não fosse assim, Ele não o permitiria”.

Ela sentiu-se consolada por essa memória. Todo o medo dissipou-se e ela decidiu tomar aquela situação como mais uma forma de Deus falar-lhe. Entrou em casa e lembrou-se novamente da bolsa, pois deveria colocá-la no cabide que ficava atrás da porta, e quase foi tomada novamente pelo sentimento de terror. Mas, numa súbita decisão, seguiu para a cozinha, colocou água para ferver, preparou o café, sentou-se à mesa, degustou seu delicioso e tão esperado café com o pão quentinho.

Louvar a Deus por toda a nossa história de vida

Ela resolveu louvar a Deus por tudo o que lhe havia acontecido naquele dia, desde que acordou até aquele momento, mesmo sabendo que, no outro dia, teria grande trabalho com a papelada da segunda via dos seus documentos. Estava decida a guardar aquela paz que lhe havia sido revelada por cada situação corriqueira daquele dia (aparentemente) tão normal e ao mesmo tempo extraordinário.

Louvou a Deus por aquela amiga que lhe mostrou não apenas algo novo, mas um jeito novo de viver. E, apesar de tudo, preferiu guardar a paz, pois não tinha mais dúvida de que, a todo momento, Deus estava com ela.

Carla Picolotto, é natural de São José das Missões-Rio Grande do Sul membro da Canção Nova desde 2009. Passou pelas missões do Rio de Janeiro- RJ, Fortaleza- CE, além de Cachoeira Paulista-SP e Lavrinhas-SP atua hoje na missão de Queluz- SP na Equipe de Formação do Discipulado, que corresponde ao segundo ano do período de Averiguação de ingresso das novas vocações à Canção Nova.

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