Digite pelo menos 3 caracteres para uma busca eficiente.

Considerados tabus pela sociedade, a depressão e o suicídio entre os adolescentes surgem no foco das discussões a partir da polêmica da Baleia Azul, jogo virtual em que os participantes devem cumprir 50 desafios. Entre eles, mutilar-se, passar um dia sem falar com ninguém, ver filmes de terror e subir no telhado no meio da madrugada. Por fim, o indivíduo é desafiado a tirar a própria vida. Até semana passada, a Secretaria Estadual de Saúde do Paraná (Sesa) contabilizava nove casos de adolescentes de automutilação ou ingestão de medicamentos supostamente relacionados ao jogo. Outros sete estados também registram mutilações e suicídios suspeitos.

Segundo a professora do departamento de Psicologia e Psicanálise da UEL, Rosemarie Elizabeth Almeida, uma explicação para o envolvimento de adolescentes em jogos como a Baleia Azul é a perda de referências. O estado mental do adolescente é um estado mental de isolamento, em que o indivíduo busca sua própria autonomia e seu amadurecimento. Ele, então, precisa de referências que o ajudem nesse processo". Para a pesquisadora, é preciso diferenciar acolhimento de suporte. "Muitos pais acham que basta providenciar apoio financeiro e garantir condições materiais para o adolescente. Um pai e uma mãe que trabalham o dia inteiro acham que o filho tem condição de se virar sozinho, sendo que, mesmo em processo de amadurecimento, ele precisa das referências do cotidiano. São coisas básicas como conversar e ouvir, programar um almoço, um lazer em família que acabam fazendo a diferença".

De acordo com Rosemarie, os jovens também não encontram apoio na escola. "Ela não satisfaz o adolescente, não dá sentido para aquilo que ele realmente quer aprender. A educação que temos hoje ainda é composta por experiências acumulativas e repetitivas de aprendizagem. Como a família e a escola não se mostram preparadas para fazer esse acolhimento, o adolescente recorre a grupos virtuais e a jogos como o da Baleia Azul. Aqueles que passam horas na Internet se tornam alvos ainda mais fáceis desse tipo de situação patológica".

A professora alerta ainda para o uso de celulares, computadores e outros aparelhos tecnológicos que precisam ser controlados pela família. "Os pais incentivam os filhos a brincar com equipamentos eletrônicos desde a infância, aproveitando a distração dos pequenos para relaxar. Na mente dos responsáveis, o que distrai não requer a atenção, o olhar", afirma, destacando ainda que não é questão de ser contra a tecnologia, mas sim de saber usá-la.

A pesquisadora avisa que os adultos devem ficar atentos a qualquer sinal de que o adolescente está se mutilando. "O ato de machucar a si mesmo é uma maneira de expressar a dor que a pessoa não está conseguindo suportar, é um pedido explícito de ajuda. É uma forma de violência que deve ser observada pelos pais. A qualquer sinal de que o filho está se mutilando, o responsável deve buscar entender o que está se passando e procurar orientação profissional. Mesmo que o adolescente recuse o apoio, é preciso insistir. O que não pode é fechar os olhos para a situação".

13 Reasons Why

Além da Baleia Azul, a série da Netflix 13 Reasons Why também tem gerado discussão em um país no qual 21% dos jovens entre 14 e 25 anos apresentam sintomas de depressão e cerca de 5% já tentaram tirar a própria vida, segundo o 2º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A produção é protagonizada pela estudante Hannah (interpretada por Katherine Langford), que comete suicídio e envia fitas cassetes com mensagens a 13 pessoas que tiveram alguma influência na sua decisão final.

A série é um sucesso de audiência e tem sido considerada responsável pelo aumento no número de pessoas buscando atendimento no Centro de Valorização da Vida (CVV). Mesmo assim, a produção foi acusada de abordar o tema de maneira irresponsável. A Associação Paranaense de Psiquiatria (APPSIQ), por exemplo, emitiu nota dizendo que 13 Reasons Why peca por não abordar a questão do adoecimento mental da personagem, não provocar diálogos sobre como o desfecho dela poderia ser evitado e principalmente por dar a impressão de que buscar ajuda é inefetivo.

"Não indico a série, pois a história dá a impressão de que não existe saída, tratamento para a depressão. O adolescente acaba acreditando nisso e não enxergando um futuro, um meio de superar", afirma Rosemarie. Ela ainda diz que ao mostrar de forma explícita o ato do suicídio da protagonista, a série pode acabar incentivando outros jovens a fazer o mesmo.

Precauções

Atitudes de isolamento, rebeldia, mudança de humor, perda ou ganho de peso, sono excessivo e tristeza são comuns na adolescência. No entanto, se a intensidade desses comportamentos for muito grande, os pais devem ficar alertas. "Situações de perda, crescimento ou transformação geram um estado transitório de tristeza ou melancolia, que afeta o indivíduo por um determinado período. Agora, se esses sentimentos se estendem, o adolescente precisa de ajuda profissional", alerta Rosemarie Almeida.

No ambiente universitário, é comum ver estudantes estressados, desanimados e pressionados no fim do semestre letivo. De acordo com a pesquisadora, esse tipo de situação também é capaz de provocar um quadro depressivo. "Pode resultar tanto em uma depressão sazonal, que dura somente aquele período específico, quanto em uma depressão que se estende. Em todo caso, o estudante pode buscar ajuda na clínica psicológica da Universidade ou consultar um profissional particular". A Clínica Psicológica da UEL fica no Campus Universitário e pode ser contatada pelo telefone (43) 3371-4237 ou pelo e-mail npclinica@uel.br. 

Agência UEL

Comentários:

Seja o primeiro a comentar!


Deixe seu comentário:

Aceita receber as novidades do Jornal União em seu e-mail?
* todos os campos são obrigatórios