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O presidente se mete na polêmica da vacina. É tudo o que o pais não precisa, uma vez que nem o governo está consolidado. Há grandes desafios a serem vencidos, mas o chefe do executivo opta pela guerra política. Vacinar ou não vacinar, eis a questão. No meio de uma pandemia os políticos se dividem mais uma vez. Há os que usam de toda a sua força para criticar o governo e divulgar que o Estado não pode interferir na vida das pessoas. Usam e abusam dos espaços na mídia e o debate se espalha rapidamente pela capital do Brasil. Os adjetivos que rotulam o presidente vão de ser um homem sem sensibilidade a portador de fraqueza política, uma vez que nem sempre os partidos que o apoiam saem em sua defesa. A população acusa a todos, inclusive a mídia, de não informar corretamente os cidadãos e usá-la com fins exclusivamente políticos. Por sua vez os médicos também são arrolados na polêmica e se dividem. Aos poucos o que parece ser apenas um debate sobre opiniões diferentes sobre qual a melhor ação para combater a epidemia se torna uma ameaça à ordem e a segurança pública. Há até os que cogitam da decretação de um estado de sítio, previsto na constituição do Brasil.

Afinal a vacina deve ou não ser obrigatória? O debate envolve também juristas e operadores do direito. Uns defendem a edição de um projeto de lei para ser aprovado no Congresso Nacional que obrigue a vacinação de todos. Quem não se vacinar, diz o projeto, vai pagar uma multa e ser impedido de atos da vida civil como realização de matrícula nas escolas, obtenção de empregos  públicos ou em empresas privadas e realização de viagens. Os hotéis só aceitam hóspedes se mostrarem certificado de vacinação. Até casamento precisam do papelucho. Outros consideram a obrigatoriedade uma invasão da privacidade do cidadão, que deve ter o direito de decidir se quer ou não ser imunizado. Ninguém pode obrigar ninguém a fazer nada sem a existência de uma lei anterior, que além de aprovada no Senado e Câmara precisa da sansão do presidente da república. Consideram o domicilio  inviolável como uma cláusa pétrea da constituição e ninguém pode invadir uma casa sem anuência do morador, mesmo que seja sob a alegação que está salvando vidas. Com as notícias publicadas na imprensa, opiniões sem qualquer embasamento científico circulam e são replicadas nos grupos que se reúnem onde podem.

Já há os que culpam os ratos, baratas, esgoto pela doença, que não é a única a assombrar a população da capital. Até os estrangeiros são vistos com maus olhos, uma vez que também são suspeitos de trazer a doença do exterior. Os ânimos explodem com a aprovação do projeto de lei que torna a vacinação obrigatória. O presidente venceu. Os jornais publicam o resultado e a população sai na rua para protestar. Há uma semana o povo enche as praças, depreda prédios públicos e impede o transporte coletivo. Ao presidente Rodrigues Alves não resta outra alternativa senão pôr a polícia na rua para conter os protestos. A violência graça por todo lado e mortos e feridos são registrados. Os radicais conspiram e articulam um golpe de estado para depor o governo e implantar uma ditadura do modelo positivista, tão cara aos que proclamaram a república 15 anos antes. O país afunda em uma crise geral, com reflexos na economia e nas exportações realizadas no porto do Rio de Janeiro, o principal do país. Durante todo o ano de 1904 as escaramuças se sucedem . Finalmente a reação contra o médico responsável, Oswaldo Cruz, o prefeito e o governo é contida. O número de mortos nos conflitos chegam a 30, 110 feridos e quase mil presos e violentados na Ilha da Cobras. Metade é desterrado para o Acre. O presidente vence a guerra das vacinas e pode até articular uma nova candidatura.

Heródoto Barbeiro é âncora do Jornal da  Record News em multiplataforma.     hbarbeiro@recordtv.com.br

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