Digite pelo menos 3 caracteres para uma busca eficiente.
Política 12/09/2012  09h54

Paixão pelo traço

Phoenix Finardi/Asimp/Unopar

Depois de seis anos trabalhando nos Estúdios da Disney, onde participou de filmes como “Mulan” e “A Nova Onda do Imperador”, a ilustradora e roteirista Rosana Urbes está de volta ao Brasil. Ela abriu uma produtora em São Paulo e se prepara para lançar um curta-metragem, “Dona Guida”. Rosana é professora convidada da Unopar no curso de pós-graduação em Ilustração e esteve em Londrina no último dia 1 de setembro para uma aula, ocasião em que falou sobre o seu trabalho, o mercado brasileiro e defendeu a produção de curtas-metragens.

Você trabalhou na Disney em produções de sucesso como “Mulan” e “A Nova Onda do Imperador”. Qual foi seu maior desafio e qual foi seu trabalho preferido?

RosanaTodo trabalho é um desafio porque cada trabalho, filme ou livro é um universo próprio que você tem que explorar e desvendar. Sempre começo do zero, parece que eu nunca desenhei na vida, nunca sei o que vou fazer, tenho que descobrir tudo de novo. Além disso é preciso se apaixonar por tudo que você está fazendo e no momento em que você está fazendo alguma coisa, parece que ela é a coisa mais bacana do universo, a coisa mais incrível que já foi feita. Em termos de grandes produções, "Mulan" foi especial porque foi a minha chegada num grande estúdio, e teve o deslumbramento de ver uma produção dessa proporção, com uma média de 200 pessoas trabalhando juntas. O desenvolvimento visual era inacreditável, o acervo de imagens de inspiração que existia para que o universo do desenho fosse construído foi uma coisa que me empolgou muito. Foi um grande aprendizado.

Você abriu uma produtora em São Paulo e está bancando sua primeira animação, “Dona Guida”. Quando o filme será lançado?

Rosana“Guida” é um projeto de curta-metragem, meu primeiro filme autoral e a idéia é lançar no ano que vem. Ele fala de uma sexagenária que tem um trabalho burocrático mas que descobre uma veia artística adormecida e resolve posar como modelo vivo para aulas de desenho.

É um filme infantil?

RosanaNão exatamente. Eu mostrei o trabalho para crianças, funciona bem mas não tem um tema infantil. Vamos ver o que o público vai dizer.

A presença da mulher é marcante nos seus trabalhos, assim como as personagens gordinhas. Isso é proposital?

RosanaO universo feminino me interessa muito. As gordinhas, descobri com o tempo, têm um carisma especial. Essa história com elas começou por causa de uma amiga, Marina, que dá aulas de canto. Eu comecei a organizar aulas de modelo vivo na Disney e tinha uma modelo chamada Sandra que era bem gordinha e era incrível, tinha uma leveza extraordinária. Comecei a desenhar as gordinhas pensando nela e mandava os desenhos para a Marina. Ela colocava os desenhos na parede e as alunas diziam que só de olhar as gordinhas ficavam mais relaxadas e cantavam melhor (risos).  A gordinha é uma das minhas revoluções particulares – eu ainda acho que vou mudar o mundo (risos). Tem um aspecto da beleza que é a manifestação da força de vida através da forma e eu fiquei fascinada com a ideia de evidenciar isso no desenho. Vejo tantas mulheres sofrendo dessa dor de não aceitar o próprio corpo, a grande maioria das mulheres se acha gorda, e vão se travando e perdendo a capacidade de se expressar fisicamente. Suspeito que isso possa interferir na capacidade de se expressar de uma forma geral.

Além de se preparar para lançar um filme você também está ilustrando livros. Você acha que o mercado brasileiro mudou nesse tempo em que você ficou fora? Tem mais espaço para a ilustração profissional?

RosanaO Brasil avançou nessa área, é inegável. Quando saí havia 4 ou 5 estúdios de animação. Hoje aparecem novas produtoras todos os dias e estamos produzindo longas e séries de animação. Os livros também aqueceram o mercado. Visitei a Bienal e tem muita gente produzindo, acho que o mercado editorial é promissor, assim como os festivais de animação. E aqui há uma questão importante que é o investimento em curta-metragem. É no curta que se desenvolve uma escola de animação. É complicado arriscar novas linguagens e desenvolver um sistema de trabalho para um longa ou para uma série, por que produzir  animação é um processo longo e laborioso. É na produção de curtas que reside a riqueza cultural do universo de animação no país. Não podemos pular essa etapa. Num formato menor, como o curta, você tem oportunidade de experimentar e conseguir trabalhos viáveis. Acho que o Governo e realizadores precisam entrar mais nessa jogada, retomar investimentos, porque estamos vivendo um momento de expansão da indústria da animação no Brasil e investir na produção de curtas, é investir em cultura.

Comentários:

Seja o primeiro a comentar!


Deixe seu comentário:

Aceita receber as novidades do Jornal União em seu e-mail?
* todos os campos são obrigatórios