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Além das mortes e perdas materiais, doenças crônicas podem se agravar e outras podem passar por surtos, como a febre amarela

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), órgão que é ligado ao Ministério da Saúde, faz um alerta sobre a situação dos moradores que sobreviveram à tragédia de Brumadinho: pode haver o agravamento de doenças crônicas e o surgimento de outras tantas por conta da destruição que tomou conta da cidade.

A febre amarela, por exemplo, é uma das doenças que pode voltar. Segundo Christovam Barcellos, coordenador do Observatório Clima e Saúde da Fiocruz, o rompimento da barragem trouxe desequilíbrio ao meio ambiente e a volta de doenças que estavam sob controle é um dos problemas que podem surgir.

“Com o desequilíbrio ecológico que atingiu quase todos os rios daquela região, é provável que tanto as pessoas quanto os macacos [que também é vítima da febre amarela e não o transmissor da doença] tenham um desiquilíbrio e haja um surto lá. Esta comprovação entre o surto da doença e o acidente ainda é polêmica, mas não custa nada vacinar as pessoas”, disse o coordenador.

Outras doenças que podem atingir a população de Brumadinho e causarem um surto são a esquistossomose e a leptospirose. “Com a contaminação dos rios pelos esgotos, esta doença pode aparecer”, pondera Barcellos. “A leptospirose é muito comum em enchentes e quando há contato com a lama. Os trabalhadores que atuam na operação de resgate já estão sendo vacinados, mas na população ela pode aparecer”.

Além destas mazelas, Dengue, Chikungunya e Zika podem surgir por conta dos próprios moradores. “Com a falta de água, as pessoas podem começar a acumular água em suas residências e, sem querer, ajudar a formar criadouros preferenciais do Aedes aegypti”, alerta o pesquisador da Fiocruz. O verão, que vem acompanhado de chuvas, potencializa o surgimento dessas doenças.

Olhar além

Uma das prioridades das autoridades, segundo Barcellos, é prestar suporte a cerca de três mil pessoas que foram afetadas direta e indiretamente, sobretudo as comunidades rurais. “Em torno de três mil pessoas moram naquela região que foi mais afetada. E essas pessoas podem ter perdido seu sistema de abastecimento de água, acesso aos serviços de saúde, são comunidades que estão isoladas, já que o acesso a eles foi interrompido com o rompimento da bacia de rejeitos”, detalhou.

O problema se torna ainda mais complexo quando se percebe que além do acesso à água e outros meios de subsistências, esses moradores sofrem de doenças crônicas, como diabetes ou problemas cardíacos. “Essas pessoas precisam de um vínculo permanente com o sistema de saúde”, alerta Barcellos. “Essas doenças podem se agravar com o tempo se elas não forem assistidas. Além disso, elas sofreram um impacto enorme com a queda da barragem: perderam parentes, amigos, condições de vida, há todo um abalo psicológico”, acrescenta.

Partos improvisados

Barcellos esclarece que quedas de barragens, como esta que se deu em Brumadinho, afetam de maneira drástica o sistema de saúde local. “Às vezes mais, às vezes menos, mas afeta. Todos esperam que depois de um acidente grande como este, haja mais internações, mas há uma diminuição porque muitas vezes as pessoas não conseguem, por exemplo, transporte para serem levadas a um hospital e serem internadas”, detalha.

As mulheres grávidas podem ser muito atingidas por isto quando optam por terem seus filhos em casa, de maneira improvisada. “Isto pode gerar problemas sérios de saúde. Estamos pedindo para que todas as gestantes se cadastrem, ou se recadastrem, e que todas as mulheres grávidas passem novamente por um exame pré-natal”, diz.

Redução do impacto

Além das pessoas que estavam muito próximas à barragem quando rompera, outras que estavam distantes do Rio Paraopeba, mas, mesmo assim, foram afetadas, precisam de cuidados imediatos.

“Durante algum tempo, este rio terá que ser interditado para pesca, abastecimento de água, irrigação e para atividades de lazer. E por conta disto, devem ser feitos sistemas alternativos de emergência para saneamento, de esgotamento sanitário e abastecimento”, pondera Barcellos.

Um exemplo deste quadro se deu com o índios pataxós, que estavam concentrados ao lado do Rio Paraopeba, mas tiveram que migrar por considerarem as águas dali inapropriadas para consumo. “Eles viram os peixes morrendo e foram embora. Temos que cuidar dessas populações que estão ali e foram afetadas. Como esses índios conseguem hoje água e alimento? Assim como eles, pode haver várias outras comunidades que foram afetadas ao longo do Rio Paraopeba. Esta é nossa principal preocupação: cuidar das pessoas isoladas com vacina e tratamento emergencial”, finalizou.

(Thiago Coutinho/Canção Nova)
 

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