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Transtorno psiquiátrico é a doença primária e o alcoolismo a secundária no público feminino; estudo revela que consumo da substância cresceu 4,1% entre as mulheres nos últimos 6 anos

As mulheres brasileiras estão bebendo mais: 17% das entrevistadas durante a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) afirmaram ter bebido uma vez ou mais por semana em 2019. O índice é 4,1 pontos percentuais maior do que era em 2013 (12,9%). O resultado foi divulgado na última semana pelo estudo conduzido pelo IBGE, em convênio com o Ministério da Saúde, que verificou o estado de saúde, os estilos de vida, as doenças crônicas e a saúde bucal da população do Brasil.

Alessandra Diehl, psiquiatra especialista em dependência química e vice-presidente da Associação Brasileira Sobre Estudos de Álcool e Outras Drogas (ABEAD), conta que o alcoolismo e a dependência dessa substância estão crescendo gradativamente nos últimos anos, sobretudo entre o público feminino. “Outros estudos já apontavam esse aumento. Entre 2006 e 2012, o consumo de álcool em binge cresceu de 36% para 49% entre as mulheres e, no mesmo período, as taxas de dependência subiram de 3.38 para 3.63”, relata a especialista.

O fenômeno deste aumento no público feminino revela que historicamente, os problemas relacionados ao consumo de álcool e outras drogas sempre foram mais comuns entre os homens. As mudanças no papel social da mulher nas sociedades têm sido apontadas como uma das possíveis explicações para a diminuição dessa diferença entre os gêneros masculinos e femininos.

A psiquiatra explica que que as mulheres tendem a desenvolver dependência de álcool mais rapidamente em comparação com os homens. Esse fator está relacionado inclusive às características físicas e biológicas do gênero: o menor volume de água corporal nas mulheres interfere na metabolização do álcool no estômago. Além disso, o contato dessa substância com os hormônios femininos (estrógenos e progesteronas) aumenta o dano hepático nesse público.

O efeito telescópico é mais um aspecto que deve ser analisado quando se fala da projeção do consumo de álcool entre as mulheres. Este conceito é utilizado em estudos clínicos para explicar por que elas iniciam tratamento com histórias mais curtas de problemas com álcool do que os homens, mas com sintomas equivalentes. “Mesmo fazendo o uso de álcool em idade mais avançada do que os homens, as mulheres buscam tratamento com a mesma idade. Elas lidam ainda com sentimento de culpa e medo, reforçados pelo estigma social de que a mulher não pode se intoxicar. Enfrentam também de falta de apoio do parceiro para o início de um tratamento e um sistema de saúde carente de serviços especializados, com foco específico nas necessidades desse público. Tudo isso favorece o chamado efeito telescópico”, aponta Alessandra.

Depressão é porta de entrada para o álcool

Outra informação importante é que, nas mulheres, os transtornos psiquiátricos tendem a ser a morbidade primária e a dependência, a secundária, ao contrário dos homens. Ou seja: o consumo de álcool e drogas nas mulheres, geralmente, está associado a transtornos do humor (mania e depressão), de ansiedade (pânico, fobias e transtorno do estresse pós-traumático) e transtorno de personalidade borderline.

Sherydan Luisa de Oliveira, gestora técnica da comunidade terapêutica feminina, Missão Resgate da Paz, na cidade de Goiânia (GO), ressalta que o álcool é encarado por muitas dependentes erroneamente como um ‘bálsamo’, uma poção mágica para aliviar sintomas de estresse. “A depressão é um gatilho para a bebida. Muitas mulheres que buscam apoio na comunidade terapêutica apresentam um quadro de depressão anterior. O alcoolismo pode ser observado uma consequência do problema da saúde mental. A princípio o consumo do álcool era apenas uma forma de relaxamento, que acabou provocando a dependência química, atrelada à depressão”, afirma Sherydan.

Ela diz ainda que as mulheres estão mais suscetíveis aos transtornos psicológicos e psiquiátricos porque se sentem incompreendidas e precisam da escuta, do sentimento de empatia. “Quando alguém se dispõe e ouvi-la e dar atenção a busca pelo tratamento é facilitada. Nesse contexto, os coletivos femininos, que realizam reuniões online durante a pandemia, têm contribuído bastante para aliviar a tensão das mulheres dependentes. Por ser um grupo vocacionado para o olhar para o gênero, aumenta a adesão e permanência desse público. Na rede de apoio elas enxergam na dor da outra a própria dor e conseguem compartilhar emoções e sentimentos, que ajudam a estancar as feridas. Não podemos perder de vista que o alcoolismo está relacionado à depressão e que cuidar da saúde mental é uma forma, também, de olhar para a dependência química”, observa Sherydan.

Na opinião dela, a segunda onda da pandemia da Covid-19 pode aumentar ainda mais a busca pelo álcool como remédio para as angústias enfrentadas pelas mulheres em tempos de Covid-19. “É consenso que elas estão sobrecarregadas, tendo que administrar muitas tarefas, sem recursos. Essa sensação de impotência pode aumentar a frequência de uso e a tolerância ao álcool, que levam à dependência. Por isso, as mulheres devem buscar ajuda psicológica quando surgirem indicativos de depressão como sinais de abatimento, isolamento e intolerância. O caminho é buscar um lugar de escuta, para que se sintam compreendidas. Esse tratamento psicológico pode inibir a gravidade de um quadro depressivo e, consequentemente, o alcoolismo”.

Alessandra Diehl destaca que a realidade do Sistema Único de Saúde (SUS) carece de modelos de tratamento de baixo custo, baseado em evidência e específicos para o gênero. “O problema começa na falta de identificação, de um diagnóstico e intervenção feita por profissionais da atenção primária à saúde”, acrescenta.

O perfil das dependentes em álcool

De acordo com Alessandra Diehl, as mulheres que sofrem com a dependência química, sobretudo com o alcoolismo, têm determinadas características em comum. Geralmente, são mulheres que começaram a beber em faixa etária precoce; com baixa escolaridade; baixa inserção no mercado de trabalho; enfrentam conflitos intrafamiliares; possuem vínculos afetivos enfraquecidos; sofreram violência ou abuso sexual; e amigos, familiares e companheiros favoreceram o comportamento adictivo.

Além de todos esses fatores de vulnerabilidade, o início do uso do álcool entre mulheres pode ser associado a um mecanismo de enfrentamento da timidez, da ansiedade e de baixa autoestima. “As adolescentes estão ainda sob a influência da mídia, que associa o consumo do álcool e do tabaco ao glamour, à beleza, à riqueza e ao sucesso profissional”, finaliza a psiquiatra.

Onde buscar ajuda on line?

O Coletivo Alcoolismo Feminino (@alcoolismo_feminino) surgiu em meio à quarentena e apoia as mulheres que querem se recuperar da dependência do álcool. Realizam reuniões próprias para grupos de Alcoólicos Anônimos.

Giovana Chiquim/Asimp

#JornalUnião

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