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Negalora do Brasil, isto é, Claudia Leitte

Por Hagamenon Brito

Senhor de todos os ritmos e paciente artesão dos fios da vida, o tempo é amigo de Claudia Leitte, 32 anos. Seu cúmplice, avô, pai, irmão, namorado, marido, filho... A adolescente se transformou numa mulher plena e linda, a revelação do carnaval baiano virou estrela pop de todo o país, fez parcerias com astros internacionais, estabeleceu laços fortes com uma legião de fãs apaixonados e não esqueceu que, para um intérprete, prestar atenção nas lições que a canção tem a oferecer é de lei.  Música é prazer, talento e profissionalismo. Tocar no rádio, estar na TV, bombar nas redes sociais, brilhar no showbiz, é consequência disso. O céu só será o limite se houver verdade.

Gravado em show realizado no Teatro Castro Alves, 1.554 expectadores e principal palco de Salvador, no dia 13 de dezembro de 2011, com direção geral da cineasta gaúcha Flavia Moraes, o DVD Negalora (lançamento da Som Livre e também disponível em CD) traduz com competência técnica e sinceridade a trajetória de Claudia Leitte. Dos convidados especiais ao repertório, nada é aleatório. Do título, termo carinhoso com o qual o parceiro e mestre Carlinhos Brown a definiu um dia, às lagrimas ao homenagear a avó cantando “Você existe em mim” (Brown, Lester Mendez e Josh Groban), tudo está a serviço da verdade de uma artista que representa muito bem o meltingpot da sociedade brasileira.

Às vezes negra, às vezes loura, mas sendo sempre ela, Claudia Leitte começa o show entrando pela porta de acesso da sala principal do TCA, caminhando entre a plateia e subindo ao palco para voar com os “Pássaros” (MikaelMutti), uma balada tão bonita quanto a confessional “Bem vindo amor” (Claudia Leitte e Sérgio Rocha), que a cantora dedica ao marido, o empresário Marcio Pedreira, sentado logo à frente e com o filho Davi no colo. “Você me deu um filho lindo”, diz a canção. Felicidade é poder dizer sim, pois não, e em todo o DVD Claudia deixa a emoção fluir sem artifícios. O jogo dela é assim.

Em um espaço mais intimista como Teatro Castro Alves, sem a necessidade aeróbica de animar a multidão em cima do trio elétrico ou numa grande arena, Claudia mostra o seu crescimento como intérprete. Na já citada “Você existe em mim” e em “Magalenha” (Carlinhos Brown) e “Black man” (Brown, Rubens de Paula e Sílvio Mury), por exemplo, ela é capaz de derreter o coração do mais cínico dos homens. Em “Magalenha”, com participação especial do mestre Sergio Mendes ao piano, e em “Black man”, um samba-reggae que ganha um fervor gospel com palmas, prevalece a face “nega” da “lora”.

Ritmicamente, o DVD “Negalora” também seduz pela variedade: das baladas românticas aos sambas (samba histórico, samba-reggae, samba com influência eletrônica), passando pelo pop e o rock, Claudia Leitte costura e borda seu vestido musical com criatividade. Joga tempero baiano na versão de “Telegrama” (Zeca Baleiro), honra o Rei Roberto Carlos em “Falando sério” (Maurício Duboc e Carlos Colla), vira sambadeira sensual em “Incendeia” (João Nabuco) e homenageia o BRock com “O tempo não para” (Cazuza e Arnaldo Brandão), que tem participação especial do carioca Tico Santa Cruz.

Compostas por roqueiros, “Amor super-herói”, do baiano MarconyScaramussa; e “Afaste-se de mim”, versão de Claudia para o hit mexicano “Aléjate de mí”, ganham releituras muito particulares, além de provar que a artista baiana também é ligada no universo estético do pop & rock. A primeira, uma canção da cena indie rock de Salvador que poucos conhecem, recebe um arranjo pop oitentista, enquanto “Afaste-se de mim”, lançada pela banda mexicana Camila em 2010, tem seu espírito romântico ainda mais destacado.

E, entre os convidados especiais, que também incluem Gracinha Leporace, Henrique Cerqueira e Max Viana, todos os refletores para Carlinhos Brown! Essencial no show, do termo “negalora” às suas músicas presentes no repertório, ele faz dueto com a anfitriã em “Pra todo efeito”, homenagem ao grande poeta do samba baiano Batatinha (1924-1997), que Claudia teve a honra de conhecer quando menina; e coprotagoniza “Repente negalora”, num momento emblemático do DVD. Mr. Brown, sabemos, é personagem fundamental da cultura pop baiana produzida a partir dos anos 80. Ele é o cara.

Africana da Alemanha, negalora do Pelô, nascida em São Gonçalo (RJ) e criada na Bahia, Claudia Leitte canta axé, samba, reggae, balada pop, rock... O que vier, ela traça com o coração, o talento e a fé dos que não estão aqui a passeio.

(Paulo Roberto Sampaio)

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